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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Conto: Rotas (19 - O Sol)

O Sol já dava sinais de aparecer e o Louco ainda corria !

Subitamente, saiu de seu torpor e caiu ao chão, debaixo de uma
árvore, e adormeceu.

Sonhou com todas as idéias que já passaram por ele, sonhou com todas
as coisas que já tinha visto, até que petrificado, acordou novamente
ante a visão desagradável dos cães.

O dia já nascera e dois jovens estavam vindo em sua direção, amigos,
cordiais, se abraçando, inocentes de sentimento e ações.

Novamente teve a visão daquelas gotas, mas ao invés de serem más,
eram agradáveis, saíam do astro rei e banhavam todos com sua energia
benéfica e agradável.

Sentiu tão bem, que até se esquecera de todos os percalços que
passara até então, e continuou a observar os jovens.

Sentiu amor e alegria fluindo deles e este mesmo amor o contaminou
também, deixando relaxado e feliz.

A amizade era um bem importante, e ele quase nunca teve o
privilégio... Porque seria esta situação injusta aplicada à ele ?
Nunca ele tinha feito mal a ninguém...

Quem estava o julgando ?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Conto: Rotas (18 - A Lua)

A Lua

Já refeito e vestido, pôs-se novamente a andar (era só o que lhe
restava) em direção ao oriente, onde a luz já tinha desaparecido.

Caminhava absorto em suas idéias, de como o mundo estava
demonstrando-lhe os mistérios da criação, de todas as experiências que
vivera, de tudo o que viu, pensando em talvez transformar sua epopéia
em um compêndio, para que todos pudessem sentir e saber o que ele
soube.

Mas o Louco não sabia ler, nem escrever, apenas soletrar...

Podia ele então desenhar a sua estória, para que os que viessem
depois, trilhassem o mesmo caminho, mas com um mapa.

A noite já ia há tempo, e o Louco já podia entrever a Lua, despontando no céu.

Escutava uivos penetrantes, que lhe cortavam o coração e a alma,
arrepiando-lhe os pêlos da nuca, dando-lhe um enorme mal estar.

Mas como sempre, ele foi a procura...

Na beira de um lago estranho, viu de onde provinham os uivos: dois
cães, desesperados, uivavam até a exaustão para a Lua, enquanto um
escorpião os fitava, ameaçador.

Duas torres, tal qual colunas, guardavam passivamente a cena, como se
fossem duas sentinelas a fitar o quadro depressivo.

A imagem desagradou-lhe de uma maneira tal que, seu estômago se
embrulhou e sua garganta secou - que visão de péssimo agouro !

Sentia uma energia negativa fluindo, podia até vê-la em gotas, sendo
sugada para o astro nefasto, enquanto as forças dos cães desvaneciam
lentamente. Sentiu cólera, traição, ardis e esquemas passando por ele
e se espalhando pela Terra.

Rapidamente, mais uma vez, correu, correu, correu durante horas,
desesperado, ofegante, correu tanto que já não sabia há quanto tempo
corria...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Conto: Rotas (17 - A Estrela)

Aquelas manifestações da cólera divina ainda imprimiam-lhe
sentimentos de desespero no coração - aquilo fora terrível, ver os
homens caindo, gritando, e ele ali, sem nada poder fazer.

Não sabia ao certo o que estava aprendendo, mas era certo que a cada
experiência que passava, cada vez mais sentia-se impotente diante do
Altíssimo.

Encontrou um riacho e nele resolveu se banhar - talvez para que seu
corpo já carregado pudesse escoar alguma energia para a água.

Ao entrar na água tépida, sentiu um arrepio - era mais um sinal de
que algo ainda estava por vir - um calafrio percorreu-lhe a espinha e
ele logo se viu rodopiando, os olhos faiscantes e a respiração trôpega
- era desesperador.

Agarrou-se à vegetação da margem do rio como pôde, até que sua visão
novamente se conectasse com este mundo.

Logo que enxergou a margem do rio e seus barrancos, saiu da água e
pôs-se a procurar pelas suas roupas.

Andava rio acima, já ciente de seus pensamentos, procurando,
procurando, até que se deparou com uma mulher nua na beira da água,
enchendo dois odres no rio - ou será que esvaziava ? Parecia que ela
tirava água do rio e jogava em sua margem - tentaria ela esvaziá-lo ?

Parecia o conhecimento: nunca poderia ser esvaziado completamente de
uma pessoa...

No céu, as primeiras estrelas da noite apareciam, e por sobre a
cabeça da adorável criatura, uma estrela de sete raios a iluminava em
seu resplendor. Numa árvore próxima um pássaro a observava, meio
furtivamente, contemplando e admirando aquele fantástico e mágico
corpo.

Ciente de sua nudez ele se apavorou, mas a criatura de tão entretida
que estava em suas atividades, não lhe dirigiu o olhar. Seria ela cega
?

Resolveu dar a volta e chegando por detrás daquele maravilhoso corpo
feminino, sussurrou-lhe no ouvido para que não se virasse e indagou
sobre o paradeiro de suas vestes, ao que foi informado que a donzela
nada sabia, mas acrescentou-lhe a palavra perdida no fim da frase,
dizendo-lhe que ela permitiria-lhe ousar e encontrar todos os segredos
da criação.

Agradecendo-lhe, o Louco dirigiu-se mais uma vez rio acima, e ao
pronunciar a palavra perdida, um vento horrível se fez presente,
levando suas vestes para junto de si. Que poder !

sexta-feira, 25 de março de 2011

Conto: Rotas (16 - A Casa de Deus)

Continuando sua senda pela estrada, de noite, suado e cansado, o
Louco pôs-se a pensar nos acontecimentos até então.
Viu ele que todas as facetas do ser humano estavam sendo
descortinadas em frente de seus olhos, como a ensinar-lhe uma lição: o
ser humano estava ainda muito longe de ser perfeito...
Na estrada um ruído vindo de sua esquerda o alertou, e virando-se na
direção que vinha o vento, viu ele outra fogueira, mas desta vez
longe, muito longe.
Continuou andando pela estrada, mas a curiosidade de presenciar
outros fatos estranhos o impelia em direção àquele acampamento.
Sua razão o impedia de ir, mas seus instintos o impeliam
freneticamente, denunciados pelo arfar do peito e do bater
descompassado do seu coração. Sim, ele iria até lá, prevendo que algo
estava ainda para acontecer.
Atravessou um campo orvalhado de trigo, sentindo nas narinas o aroma
do campo - Como era bom - pensava ele, enquanto sua marcha cada vez
mais o aproximava de seu destino.
Já distinguia vozes quando o vento soprava em sua direção, e o bater
de ferramentas - de noite ? - e cada vez mais ficava curioso para
chegar.
Entreveu a silhueta de um grande prédio sendo erguido no meio do
nada, uma construção estranha, sentia-se inebriado pelo cheiro da
fogueira e do bruxulear das labaredas.
Subitamente, suas narinas sentiram outro cheiro, um cheiro familiar,
doce, úmido - Chuva !
Correndo para tentar se abrigar na construção daquela torre
babilônica, mal teve tempo de discernir o que acontecera - uma
poderoso raio caiu bem no topo da torre, enquanto os operários em
queda livre gritavam pela vida.
Sentiu que aquele prédio era uma paixão de alguma alma ainda não
esclarecida, uma Torre de Babel, e viu que a ira divina destruía ódios
e paixões.
Retomou sua jornada, molhado e arfante, devido a adrenalina que era
bombeada por suas veias, mais uma vez espantado com os meios que o
destino arrumara para lhe ensinar sobre o ser humano.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conto: Rotas (15 - O Diabo)

O Diabo

 

            Encontrou um bando de pessoas na beira da estrada reunidas em um alegre acampamento, onde ardia uma fogueira crepitante ao centro, e em volta as pessoas acompanhavam os voleios das labaredas.

            O frio da noite já estava assentando-se em seus ossos - Seria bom parar aqui - pensou ele. E de fato, o Louco, com o seu bornal rasgado e cansado, dirigiu-se a um dos troncos para sentar-se.

            Logo que se sentou, notou algo estranho - todos estavam de cabeça baixa, sem conversar, apenas murmuravam algo sobre traição, os olhos perdidos no nada, como que pronunciando um mantra de revolta e insatisfação.

            Foi ficando incomodado com aquela situação, até que uma das pessoas salta para o centro da roda e em altos brados, blasfema e grita sobre traição, sobre um companheiro deles que há muito traiu a tribo, e invoca a altos brados o Senhor dos Malefícios, o Senhor da Traição, o Diabo em pessoa!!!

            Tomado pelo horror, viu uma nuvem amarelada sair pelas labaredas, enquanto um cheiro horrível assolava suas narinas, acompanhado de um ribombar ensurdecedor, até que, finalmente, ele o viu, em pé, altivo, em meio às chamas: o Senhor das Profundezas!

            Ele viera para julgar o traidor e levá-lo para as profundezas...

            Mas o traidor há muito fora pendurado pelos pés até a morte...

            O Louco achou aquilo muita loucura, e aterrorizado e entorpecido, assim que a imagem se desvaneceu, pôs-se a correr desabalamente pela estrada, tendo como companhia apenas as estrelas, sem olhar para trás nem uma única vez...

            Traição era uma coisa que queria ele bem longe...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Conto: Rotas (14 - A Temperança)

A Temperança

Seus pensamentos se resumiam a tentar resolver o mistério daquela
caminhada, mas começou a sentir que aquele mistério nunca
resolver-se-ia.

Um pensamento passou por sua mente: nunca tente levar a vida a sério,
nem tente racionalizá-la completamente.

Era isso que ele sempre fazia, antes de empreender esta jornada
sempiterna que aparentemente nunca levaria à nada.

Retomou o seu rumo por entre densas folhagens duma floresta e
caminhando resolutamente, começou a sentir ódio e rancor por todos
aqueles que encontrara em sua jornada.

Era um ódio profundo, doía-lhe o coração, as narinas dilatavam-se,
tornando o caminho cada vez mais enfadonho - até os pássaros e
pequenos animais da mata irritavam-no.

Um pequeno animal cruzou o seu caminho e tomado pelo ódio intestinal,
começou a perseguí-lo, como se descontasse todo o ódio que sentia
naquele coitado.

Corria por entre as ramagens e árvores, em meio a uma bruma fresca de
neblina da manhã, sua roupa estava úmida do orvalho da floresta, seu
bornal era um incômodo naquela corrida.

Pensou em usar o cajado do bornal para atacar aquele animalzinho
indefeso, e eis que surge detrás de uma árvore uma bela donzela, com
os olhos mais lânguidos que já vira, e olhando-o fixamente, pediu-lhe
calma e temperança, paciência com o mundo, seus habitantes e seus
atos.

Aquilo pareceu desarmá-lo completamente, seu coração voltou ao
compasso normal, suas narinas cessaram o movimento arfante, e ele se
acalmou.

Já bastava - foi embora, taciturno...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Conto: Rotas (13 - A Morte)


A Morte

Parou para dormitar em um campo recentemente arado e encostando-se em
uma moita, finalmente dormiu.

Seus sonhos a princípio não foram diferentes daqueles que sonhara até
então, mas eis que de repente, entremeado de gritos e vociferações,
seu sonho assume um caráter nunca antes visto, um caráter desesperador
e sombrio.

Em meio aos gritos de socorro das vítimas, via ele um esqueleto
arando aquele mesmo campo onde estava dormindo, mas olhando
atentamente, viu que aquela figura sombria não arava, e sim, podava.

Usava um alfange enorme, e podando as cabeças e membros das vítimas,
ia espalhando-os pelo solo amarronzado e estéril.

Membros e cabeças jaziam dispersos pelo chão, enquanto podia-se notar
o ricto de sorriso estampado na face do esqueleto - sim, ele gostava
daquilo.

Mas num descuido, o esqueleto podou um próprio pé, mas nada o tirou
de ceifar mais e mais vidas naquela cena dantesca.

Estertorando, o Louco acordou desesperado, o suor empapando suas
rotas roupas e voltando a si, com o sol já despontando no horizonte,
pegou seu bornal e novamente partiu.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Conto: Rotas (12 - O Enforcado)

O Enforcado

No frêmito da corrida, quase sem fôlego, trôpego, o Louco resolveu
diminuir a cadência de seus passos, pois já era tarde e deveria ele
achar algum lugar de pouso.

Qual foi seu espanto quando, de súbito, ouve uma voz da beira da
estrada poeirenta em que caminhava, clamando por atenção.

Ao fixar melhor a vista por entre as ramagens da vegetação da
estrada, vislumbrou um homem dependurado em uma árvore, por apenas um
pé.

Resolveu acercar-se da tão triste figura e descobrir o porque da sua
infame situação.

Ao se aproximar, o jovem dependurado bradando por socorro começou a
se agitar, e ao sacudir-se podia-se notar as moedas caindo de seus
bolsos em direção à terra.

Mas apesar de tão esdrúxula posição, o mancebo parecia tranqüilo.

O Louco argüindo-o sobre a origem de sua situação apenas conseguiu
uns lamúrios ininteligíveis (será que a sua vida se resumiria a
palavras ininteligíveis ?), mas por entre as frases desconexas, pôde
entrever novamente a palavra NEKAN.

Seria ele o vingado da mulher ? Seria ele dependurado ali apenas pelo
capricho daquela forte criatura ?

Como não conseguisse entender nada, e pensando que pudesse se tratar
de algum prisioneiro que realmente merecesse aquele sofrimento,
continuou a andar.

E o dependurado agitou-se frenéticamente no galho e finalmente sucumbiu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Conto: Rotas (11 - A Força)

A Força

Retomado o seu caminho, ia o Louco mais uma vez viajando pela estrada
poeirenta que o levaria a lugar nenhum, quando, de repente, avistou
ele algo aterrador - um leão que estava com a cabeça de uma pessoa
entre seus afiados dentes fitava-lhe de dentro da escuridão de uma
caverna.

Podia ele até sentir-lhe o anélito que exalavam suas narinas, e o
resfolegar de sua respiração - até mesmo o palpitar de seu coração
ribombava-lhe nos tímpanos.

Súbito um pensamento veio a sua mente - se ele sentia tão
precisamente o Leão, ele também perscrutava suas reações intimamente.

Isto fez com que os cabelos de sua nuca se eriçassem - com acontecia
nos antepassados primitivos do homem, uma reação que carregara
instintivamente encroada nos núcleos de suas células, desde a aurora
da humanidade - sim, se aquela fera largasse aquela dilacerada cabeça
e resolvesse se saciar com a sua ?

Sentia a adrenalina inundar seus vasos, mas era incontrolável !

Quando a fera sentiu o cheiro da adrenalina, um impulso formidável
começou a se acumular em suas patas até que o salto foi desferido em
direção ao Louco, que teve tempo apenas de escutar um grito gélido -
NEKAM !!!

Não sentindo o aperto mortal, nem sentindo a morte agarrar-lhe, abriu
os olhos e não acreditou no que via - uma mulher abria a boca do Leão
tão graciosamente que parecia não haver problema ali - nem suas roupas
estavam amassadas !

Tratou ele de correr, mas ouviu da mulher que a vingança chegaria de
uma forma ou de outra, porque ela tinha a força para tal !!

Qual seria esta força e de que vingança tratava ela ?

Correu, correu, correu, até sentir que não poderia mais continuar - e
sob a luz da lua adormeceu sob uma árvore, tendo uma noite turbulenta
e entrecortada por visões horrendas e desagradáveis...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Conto: Rotas (10 - A Roda da Fortuna)

A Roda da Fortuna

 

            O Louco cada vez mais se achava louco (ou seria ele retornando à sanidade ?).Tentou levantar-se depressa, mas sua cabeça, mais especificamente sua fronte, doía, um galo marcava o local da batida (parecia-lhe que batera na lanterna do Ermitão).

            Então ele viu que a vida tinha seus altos e baixos, uma hora regozijo, outra, desespero.

            Mas o Louco era muito são e consciente para ficar ali com aquele velho que falava coisas estranhas, sempre sem mexer os lábios, sempre fitando os olhos do Louco como se fosse ler seus anuviados pensamentos.

            Era hora do Louco partir - ele era andarilho, e sentia que apenas havia começado a sua jornada de busca interior, mas sabia que algumas coisas já não eram tão sem sentido assim.

            Subitamente, o velho lhe mostrou uma tigela de água e com um gesto, o fez olhar para dentro da água.

            A princípio nada vira, mas algo começou a palpitar em seu peito e a se formar lentamente dentro da tigela.

            Era uma roda, que girava, alternando altos e baixos, mas que tinha uma característica peculiar: faltava-lhe um dos eixos!

            Animais subiam e desciam pela roda, ora num momento bom, ora num momento de angústia, sendo todos os movimentos vigiados por um ser exótico, que empunhava uma espada e controlava o giro da roda.

            Era o Mundo ! E aqueles que subiam e desciam eram os seres humanos, controlados por um ser superior, ou talvez uma força - um arquiteto...

            Quando os influxos começaram a se materializar em sua mente, vagarosamente a imagem se desvaneceu, e o Louco, numa solitária compreensão, retomou seu caminho na estrada, não sem antes tentar encontrar o velho, que após ter deixado a tigela com água para ele, desapareceu nas sombras do mundo.

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Conto: Rotas (9 - O Ermitão)

O Eremita

Cada vez mais profundamente introduzido num mundo totalmente mágico,
cada vez mais sentindo-se integrado com o Todo, sentiu um tremendo
baque e desmaiou - havia colidido com algo, mas não teve tempo de
saber com o quê.

Torvelinhos rodopiavam em sua frente, visões estranhas o assolavam:
ampulhetas, ossos, uma alfange que quase decepou-lhe uma mão, um
pedaço de pão, sal, enxofre, um crânio que lhe sorriu, tudo isso
envolto numa escuridão abismal - até um galo fitou-lhe nos olhos !

Estas visões fizeram-lhe sentir impotente diante do inexorável,
fizeram-lhe não mais temer o inevitável, pois aquilo era a única coisa
certa em sua vida.

Lentamente sentiu-se retornando ao mundo ordinário em que vivia, até
que fitou uma luz que pairava suspensa em frente a sua vista,
embaciando a imagem daquele que a segurava.

Era um ermitão, que com sua lâmpada caminhava como o Louco, mas sem
olhar para trás, sem olhar por cima do ombro, nunca lamentando-se do
passado.

Era ele a imagem de que algo havia acabado, algum ciclo havia se
confirmado na vida do Louco, mas era uma coisa que ele continuava a
não entender.

Ofereceu o Ermitão um pouco de sua luz, e o Louco tentou aceitá-la,
mas não teve forças para absorvê-las, não entendendo o que dizia
aquele velho, que murmurava frases de escuridão e luz, ficava cada vez
mais e mais desapontado consigo mesmo.

Então o velho lhe ensinou algo - era estranho, seus lábios não se
moveram, mas as palavras soavam reais nos ouvidos do Louco: "A
escuridão deve ser eliminada, buscando a luz interior - eu já a
encontrei, e carrego esta para tentar iluminar o caminho dos
ímpios"...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Conto: Rotas (8 - A Justiça)

A Justiça

O Louco pensou, será que existe realmente a justiça ?

Considero-me agora até mais afortunado do que o infeliz mancebo, que
mesmo vivendo na opulência, não conseguia domar os óbices, sempre
pendendo a balança para um lado ou outro.

Já ouvira falar que a justiça era cega, mas sinceramente não
conseguia visualizar alguém cego que pudesse ser um juiz - já ouvira
falar de uma tal de Maat - deusa que pesava os corações contra uma
pena para verificar se eles conservavam-se limpos e puros até mesmo na
hora da morte do sujeito - mas nunca ouvira que ela era cega.

Continuava sua sempiterna caminhada, que sempre o levava a seu
destino: a lugar algum, e sempre o impelia a continuar procurando-o,
apesar de considerar a sua busca como a busca do Santo Graal - nunca
encontraria seu destino, nem a justiça!

Mas teve um lampejo, uma visão da Justiça, imponentemente sentada num
trono, segurando uma balança na mão esquerda, a passiva, mas
empunhando veementemente uma espada na mão direita - a mão ativa -
mostrando que a justiça agiria rudemente se preciso, mas não sem antes
pesar os atos dos envolvidos.

Mas a justiça que ele vislumbrou não era cega, pelo contrário,
fitava-lhe os olhos de uma maneira tão ostensiva que o deixava
desconcertado - sim, ela observava a todos!

Foi anoitecendo, mas o Louco, cada vez mais absorto em seus
pensamentos, já não sentia que andava - era um truque que aprendera de
alguns índios – "deixe o corpo te levar, pense em nada - esvazie sua
mente, concentre-se nas passadas, até que sua mente se desligue do
corpo" - aí se podia parar o mundo, deixando sua mente agora livre
para divagar, livre para entrar em sintonia com o Infinito.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Conto: Rotas (7 - O Carro)




O Carro

Fora difícil a decisão, mas necessária.

Duas forças concomitantes, mas que não concorriam para um fim comum
não o ajudavam a viver melhor ou mais.

Com este pensamento voltou para a estrada, onde o pó assolava-lhe as
narinas e a solidão o acompanhava. Há muito seu fiel cachorro o
abandonara, tal como fizera com sua vida, era preciso sempre
renovações no sentido de continuar crescendo...

O sol já ia a pino, o suor descia-lhe pela testa, a fome corroía suas
entranhas, mas nada de encontrar algum sítio onde pudesse repousar à
sombra, longe do sol escaldante, num lugar fresco que ele pudesse quem
sabe até caçar algo, ou tentar fazer algo surgir do nada que carregava
em seu amarrotado bornal.

Muito ao longe distinguiu a poeira levantando na estrada, mas pensou
tratar-se de alucinação, mas acontece que com o tempo aquela nuvem de
poeira ia cada vez mais a seu encontro e cada vez mais tomava vulto.

Pouco tempo depois deparou-se com um nobre cujas iniciais eram "SM",
mas que não quis revelar-lhe sua identidade. Era nobre a julgar pelas
suas roupas e seu porte, e também pela suntuosidade do dossel que o
protegia do causticante sol.

Mas algo não estava certo naquela biga: seus cavalos pareciam não
obedecer seus comandos, nem as rodas de seu coche pareciam
prestar-lhes ajuda.

O Louco, que até agora mantivera-se calado observando o tão estranho
paladino, que brigando com as bridas não parecia conseguir resultado
algum com tão indômitos ginetes, resolveu pedir-lhe algo para comer,
reclamando de sua desafortunada situação de fome.

O bravo cavaleiro, atrapalhado com o destino de tão antagônicos
ginetes, atirou-lhe um pedaço de pão e um odre de vinho, mas comentou
que desafortunado era ele, que no comando de duas excelentes
montarias, via-se incapaz de controlar-lhes o ímpeto - sua vida era
cheia de forças antagônicas, cheia de forças que atrapalhavam suas
manobras, apesar de quase sempre estar convicto do que queria fazer,
ou qual direção a tomar.

Entendendo a mensagem, puseram-se a caminhar, cada qual com seus
meios, nas direções a que se destinavam anteriormente, imersos em
pensamentos um do outro.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Conto: Rotas (6 - O Enamorado)

O Enamorado

Após minutos de jactância naquela situação, o Louco sentiu seu
espírito voltar a si, e aquele ímpeto andarilho, sem raízes apossou de
seus pensamentos - Devo sair daqui - pensou ele, mas todos fitavam-no
esperando talvez mais palavras estranhas ou um gesto talvez mais ainda
estranho.

Um torvelinho materializava-se em sua frente e subitamente ele sentiu
que Deus estava ali, então as seguintes palavras brotaram em sua boca
- "Deus Meumque Jus" - Juntou os dois dedos da mão direita e
empunhando o cetro que seu predecessor deixara caído no chão, sentiu
que a luz do alto saía pela ponta dos mesmos.

Como um jorro de energia, aquela luz que ele emanava da ponta dos
dedos espalhava-se por toda a sala, atingindo todos na garganta, onde
podia ele notar um redemoinho girando em multicores que, extasiado,
não cansava de acompanhar as voltas, como se uma flor girasse suas
pétalas, absorvendo toda aquela luz.

Juntou suas coisas e saiu pela porta, sentindo-se outro, sentindo-se
parte do Altíssimo, enquanto seu público continuava extasiado, com
suas flores a girar.

Teve de tomar uma decisão, igual àquela que tomara quando decidiu
escolher não ser alvejado pelo cupido que o espreitava, largando sua
prometida e sua mãe, dirigindo-se ao desconhecido pelo caminho do
meio, renunciando a toda sua vida de pompa e riqueza.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Conto: Rotas (5 - O Papa)

O Papa

Naquele momento, entrou por uma porta disfarçada atrás do trono, um
estranho, que sussurrou no ouvido do Imperador e logo chamou o Louco
para acompanhar-lhe até a outra sala.

Nesta outra sala, muitos indivíduos tonsurados e mudos, se
acotovelavam esperando aquele que os havia chamado, que logo apareceu
num altar e abençoando-os com dois dedos da mão direita, pôs-se a
falar.

Falava palavras estranhas, algo que o Louco sentiu que já conhecia,
mas que eles davam a maior importância, mesmo não havendo ainda
encontrado o sentido.

Após o monólogo daquele que se entitulou-se o Papa, representante da
palavra do Senhor dos Mundos, o Louco sentiu um enorme impulso
subindo-lhe pela garganta, uma força que o impeliu a gritar, a
vociferar e a blasfemar contra aquele Papa, acusando-o de distorcer as
verdades com intuito de subjugar a plebe ignara.

Aquele sentimento toldou-lhe a visão e quando deu por si, vociferava
em altos brados impropérios e blasfêmias que fariam corar até o senhor
dos mundos subterrâneos.

Aquilo o fazia sentir mais forte que as colunas que ladeavam o Papa,
mais forte até que o mais forte dos Titãs, e aquele sentimento o fazia
sentir uma luz pulsante que o envolvia engolfando-o cada vez mais,
levando-o a uma comunhão com o Supremo Arquiteto dos Mundos, aquele
que chamavam a consciência cósmica, aquele que criava e destruía
mundos entre intervalos de seu alento.

Começou a falar palavras que até ele não entendia, mas cujo
significado pictórico era-lhe imprimido na mente, que trabalhando
indefectivelmente, projetava-lhe as idéias, materializando-as em
palavras inefáveis.

Aquilo era estranho, mas mais estranho ainda foi ver todos aqueles
que antes adoravam ao Papa prostrarem aos seus pés, diante das
palavras "Eli Eli Lama Sabactani".

O que significariam aquelas palavras, e porque todos se prostraram ?

Seria expulso ou adorado ?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Conto: Rotas (4 - O Imperador)

O Imperador

Era a porta da estabilidade, representada por duas colunas internas a
porta, que representavam também as colunas sagradas.

O Louco podia sentir os querubins guardando a porta com a espada de
fogo, mas não os viu, podia sentir as vibrações dentro do cômodo,
sentir a força daquele que estava ali, num trono confortável, elevado,
brandindo seu cetro dourado, como se dirigisse uma orquestra celeste.

Mas estranhamente o Louco não se sentiu mal ali. Sentia-se
familiarizado com aquele personagem, podia até ser seu bufão, mesmo
sendo contrário a instalar-se em algum lugar.

Seu destino era vagar, mas aquele homem inspirava-lhe tanta
confiança, que teve vontade de segredar-lhe seus maiores temores, mas
mesmo assim, não o fez, pois foi interrompido pela voz do Imperador,
que tonitroante, soava em seus ouvidos de maneira amorfa, mas em seu
coração, de maneira perfeitamente compreensível.

Existem algumas coisas que devemos escutar com o coração, pensou ele,
e tentando se lembrar do que havia escutado, mais uma vez admirou
aquele que sentia ser o Pai do mundo, o Pai de todas as coisas - o
Grande Arquiteto do Universo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Conto: Rotas (3 - A Imperatriz)

A Imperatriz

Foi aí que o Louco se viu realmente o amedrontado. Saindo de uma sala
lateral, vinha uma cantilena que o arrepiava até os ossos - era uma
melodia quase fúnebre, como se uma mãe chorasse por um filho que
morrera.

Com o coração a palpitar-lhe na boca e as entranhas revirando-se, foi
ele caminhando até a porta lateral, e então ele viu.

Viu a Imperatriz do mundo, a mãe de todos, o princípio gerador, e
assustou-se - era muito forte aquela visão.

A Imperatriz não o notou a princípio, mas depois de certo tempo
passou a fitá-lo nos olhos, com uma expressão lânguida que inspirava o
maior amor maternal.

Mas era um amor muito forte para ele, era um amor que cada vez mais o
envolvia e o sufocava, deixando-lhe cada vez mais atordoado, cada vez
mais desorientado, até que sentiu seus olhos merejarem de lágrimas,
lágrimas que vinha represando por toda uma existência, por toda a sua
vida.

Sua mãe. A principal pessoa a taxar-lhe de louco, a principal pessoa
a impeli-lo ao erratismo, a impeli-lo a vagar sem rumo pelo planeta,
como um cometa vagabundo, não tendo destino, nem pouso.

Mas ele sabia que o mundo dele existia e era real, e que todos
aqueles que podiam compreendê-lo, podiam senti-lo.

Era isso que importava.

Sem proferir alguma palavra, passou diante do trono, e saudando-a,
desapareceu por outra porta.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Conto: Rotas (2 - A Papisa)

A Papisa

Mais uma vez o Louco se pôs a caminhar em direção ao Oriente, pois de
lá vinha uma força que o atraía mais e mais, uma luz que o fazia mover
suas cansadas e feridas pernas em direção ao desconhecido.

Caminhou muito, até que se deparou com uma casa imponente por entre
as folhagens da floresta, uma casa velada, que não estava ali para ser
encontrada por todas as pessoas.

Dirigiu-se a porta e bateu três pancadas secas com a ponta de seu
bastão - não obteve resposta imediata, quando ia empunhar novamente
seu bastão para atingir a pesada porta, escutou um baque apenas vindo
de dentro e resolveu esperar.

Minutos após uma mortificante espera, a pesada porta se moveu sem que
ninguém a estivesse abrindo - uma grande mansão se descortinou diante
de seus olhos, ainda mais imponente do que vista por fora.

Resolveu entrar, e logo que seus dois pés se encontraram dentro do
piso xadrez, a porta se cerrou com tamanha força que pareceu que um
titã a batera.

Não tinha medo - há muito que não o sentia.

Foi andando em direção a uma luz que provinha de um cômodo mais
distante, até que chegou a uma porta com quatro letras gravadas. Ao
tentar pronunciá-las, uma mão tapou-lhe a boca - era uma mulher, que
abrindo a porta foi se sentar num trono na parte leste do aposento,
indicando-lhe uma cadeira na parte oeste.

Ela começou a falar - primeiro em uma língua estranha - mais parecia
uma prece, mas logo falou numa língua que o Louco compreendeu.

Dizia ela ter sido Papisa de uma grande civilização, que caiu em
declínio por causa das vaidades humanas - alertava ela para os perigos
do ser humano destruir sua própria raça, de destruir seu planeta.

Falava ela de conceitos estranhos, sobre dias de milhões de anos, e
de anos de milhões de dias - coisas que o Louco nem suspeitava que
existissem.

Um livro estranho lhe servia de guia - ou era o que parecia, e ela o
trazia parcialmente escondido no manto (coisa que o Louco não se
importava, pois se todas aquelas palavras eram pérolas, ele era um
porco e as pisoteou).

Era estranho, mas ao fim de todo o discurso, ela disse em voz alta
que nenhum mortal jamais descobrira o que ela escondia em seus véus.

Isso o Louco logo percebeu...

Mas essas coisas de destino da humanidade e do planeta não eram
coisas para que ele se preocupasse, ele era um simples andarilho e não
salvaria o mundo de catástrofe nenhuma.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Conto: Rotas (1 - O Mago)




O Mago

Quando começou a despertar de seu torpor deparou-se com um indivíduo
estranho, que estava se deleitando com sua situação - um Mago.



Porque estava ele rindo ? O louco não achava graça nenhuma.



Mas o Mago cada vez mais contorcia-se de riso, derrubando de sua mesa
seus objetos mágicos - mas também pudera - sua mesa só tinha três pés
- como é que ele pensa que essa mesa ficaria estável ? - pensou o
Louco.



Para mim que sou louco, isso é normal, mas para ele não pode ser.
Engraçado que cada vez mais o Louco achava que o Mago não batia bem da
cabeça.



Do outro lado do mundo, o Mago via o Louco como um indivíduo passivo,
meio louco até, já que ele o provocava com suas prestidigitações e ele
nem reagia.



Era difícil descobrir quem era o mais embusteiro da estória, já que
um achava que estava enganado o outro, visto que o Louco achava que o
Mago não tinha a idéia muito boa, e o Mago achava que o Louco era
louco mesmo.



Eram dois mundos que apenas se tocavam pela percepção daquele
momento, mas que viajavam em direções diametralmente opostas.


Mas o Mago era aberto - toda a sua vida e arte estavam naquela mesa,
e o Mago rapidamente a montou novamente - e mostrando uma moeda ao
Louco, empunhou sua varinha mágica e desapareceu, levando consigo sua
mesa e suas quinquilharias.

Conto: Rotas (0 - O Louco)




O Louco

Lá estava ele, adormecido naquele catre imundo, pensando mais uma vez como fora parar ali.

Andarilho, sem suspeitar do movimento dos mundos, cada vez mais se sentia alheio às coisas deste orbe e cada vez mais não suspeitava de como aquilo iria transformá-lo num louco, um doido que nunca mais olharia para os outros sem sentir um desprezo, uma pontada de ironia, pois no seu mundo, todos eram felizes e não tinham angústias...

Pendente do teto balançava uma lâmpada que quase já não iluminava o fétido aposento - tantas e tantas moscas ali já defecaram, escurecendo o vidro de maneira tal que a luz já não passava.

Deus, como havia chegado ali ?

Olhou em volta e viu sua trouxa que carregava consigo em cima de restos de uma cadeira.

Mexeu-se. Sentiu uma queimação na perna - passou a mão - sim, era aquele maldito cachorro que me mordeu - pensou ele - quando foi isso ?

Levantou-se e ajeitando suas calças rasgadas, tentou sair do quarto - a escuridão proveniente da lâmpada já o irritava - tinha de ir embora - Tentou, tentou até que a porta se abriu.

Mas onde estava o mundo ? Só o que se descortinava em frente aos seus olhos era um branco desesperador, como se fosse um grande lençol branco.Sua alienação começou a preocupá-lo - será que nunca mais retornaria ao mundo normal ?

Teria ele entrado num mundo que não mais o libertaria ?

Decidiu entrar de novo no quarto e concentrar-se - o mundo voltaria e ele se safaria desta situação desesperadora.

Seu desespero cada vez mais toldava sua visão como se fosse um véu - mas cada vez mais ele tomava consciência de uma risada irritante que vinha aumentando o ritmo concomitantemente ao crepitar do mesmo.

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