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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Conto: Rotas (3 - A Imperatriz)

A Imperatriz

Foi aí que o Louco se viu realmente o amedrontado. Saindo de uma sala
lateral, vinha uma cantilena que o arrepiava até os ossos - era uma
melodia quase fúnebre, como se uma mãe chorasse por um filho que
morrera.

Com o coração a palpitar-lhe na boca e as entranhas revirando-se, foi
ele caminhando até a porta lateral, e então ele viu.

Viu a Imperatriz do mundo, a mãe de todos, o princípio gerador, e
assustou-se - era muito forte aquela visão.

A Imperatriz não o notou a princípio, mas depois de certo tempo
passou a fitá-lo nos olhos, com uma expressão lânguida que inspirava o
maior amor maternal.

Mas era um amor muito forte para ele, era um amor que cada vez mais o
envolvia e o sufocava, deixando-lhe cada vez mais atordoado, cada vez
mais desorientado, até que sentiu seus olhos merejarem de lágrimas,
lágrimas que vinha represando por toda uma existência, por toda a sua
vida.

Sua mãe. A principal pessoa a taxar-lhe de louco, a principal pessoa
a impeli-lo ao erratismo, a impeli-lo a vagar sem rumo pelo planeta,
como um cometa vagabundo, não tendo destino, nem pouso.

Mas ele sabia que o mundo dele existia e era real, e que todos
aqueles que podiam compreendê-lo, podiam senti-lo.

Era isso que importava.

Sem proferir alguma palavra, passou diante do trono, e saudando-a,
desapareceu por outra porta.

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