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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

CODEX GIGA

A Bíblia do Diabo, ou CODEX GIGA (Livro Gigante) é um enorme manuscrito do século 13 (1200-1230), feito na Boêmia, nas terras históricas da Chéquia.

Impressionante pelo seu tamanho e peso (São 620 páginas de 89 cm de altura e pouco mais de 48 cm de largura, pesando um total de 74,8 quilos), e por uma figura impressionante do Diabo na página 577, o Codex contém as seguintes partes:

* Novo Testamento
* Velho Testamento
* Dois trabalhos de Flavio Josefo, historiador antigo,
* Etimologias de Isidoro de Sevilha
* O livro padrão de Medicina da idade Média, conhecido como Ars Medicinae
* A crônica dos bohêmios do século 12 de Cosmas de Praga
* Um calendário 

De especial interesse são as seções que atestam a origem e história do manuscrito como sendo da Bohêmia. No final do século 16, o Codex foi incorporado à coleção da dinastia dos Habsburgos, por Rodolfo II.

Durante o cerco sueco de Praga no fim da Guerra dos 30 anos (1648), o manuscrito foi considerado butim de guerra e levado para Estocolmo.

Ele ainda possui "receitas" de feitiços e fórmulas mágicas. Poções para curar doenças e rituais para capturar ladrões, informações sobre exorcismos e uma lista dos irmãos falecidos do mosteiro de Podlazice também fazem parte. 

Confissões de pecados foram inclusas junto a outras anotações por seus leitores posteriores.

No entanto, foi o demônio desenhado, de quase 50 cm de altura, que sedimentou sua fama de amaldiçoado, uma suposta homenagem do autor.

Sua origem é incerta, mas os últimos registros no Codex são de 1222, o que sugere que o livro tenha sido escrito em peles de 160 burros e bezerros ainda no século 13. Uma anotação em sua primeira página coloca o mosteiro beneditino de Podazice como primeiro dono.

Conta a lenda que um monge, assustado por perder seus votos por desregramento na vida mundana, prometeu a Deus escrever um livro de todo o conhecimento humano, mas vendo que não ia conseguir, fez um pacto com o Diabo para terminá-lo ainda vivo. Supõe-se que levou mais de 30 anos, e que, pela caligrafia, foi feito por uma pessoa só.


Eu adoro esses livros misteriosos do passado - e esse tem tudo de fenomenal, a começar pelo tamanho, deve ter sido considerado uma obra divina na idade média.

Amanhecia...

Amanhecia.

Uma tênue claridade se infiltrava através das cortinas rotas daquele quarto, mostrando um traço de pó na réstia de luz que aquecia a coxa descoberta de Mirna, que jazia deitada num catre mal arrumado, envolta numa aura desleixada, o quarto recendendo a sexo.

No balançar da cortina um raio de sol veio a tocar-lhe a face, que maquiada na noite anterior já lhe dava um aspecto quase grotesco depois de tanto suor.

Despertara lentamente, quase com medo de balançar a cabeça e sentir náuseas, ao som da viela úmida lá fora – seus pensamentos ainda estavam desconexos quando se deu conta de sua vida, após sentir uma leve ardência em meio à suas pernas: amargura, privações, tristeza e solidão.

Achara que a vinda do interior lhe daria emprego fácil – ilusão dos que lá moram: arranha-céus e empregos com fartura.

Levantou-se e foi ao toalete, acendendo a luz. Ao ver-se no espelho quase teve vontade de desligar a luz – sua maquiagem escorrida esculpia longos rios de tristeza em sua face, dando-lhe uma triste máscara de arlequim.

Em que me tornei? – pensou.

Lavou-se, passou uma escova nos cabelos em desalinho, embaraçados e cheirando à cigarro, retirou a maquiagem suja e novamente fitou-se no espelho.

É melhor um banho. – disse, sua voz soando estranha e sepulcral, como se estivesse debaixo d'água.

Sentindo-se imunda, afastou a ridícula cortininha de plástico que tampava a banheira, enquanto preguiçosamente uma barata imitava-lhe o ritmo e arrastava-se para o ralo.

Ao final do banho sentia-se molhada, mas ainda suja – sua alma estava suja como um lençol manchado.

Tendo removido toda sua maquiagem no banho e molhado os cabelos, ao sair nua da banheira (afastando novamente a cortininha infecta e ridícula), de relance se viu no espelho: sentiu-se usada, decadente, acabada.

Voltando ao quarto recolheu as roupas atiradas, os dejetos da noite anterior e lhes deu a destinação devida.

Ainda encontrou um cinzeiro cheio de pontas de cigarro e outras porcarias e desfez-se de seu conteúdo na privada, dando uma longa e forte puxada na cordinha da descarga como se a força imprimida na cordinha tivesse o poder de enviar mais rapidamente aquela imundície embora.

Abriu as cortinas puídas e quase teve um choque: a luz do sol feria seus olhos, já era tarde, o dia ia caminhando.

Mas seu corpo ainda exigia mais sono, e sua mente também, pois naqueles momentos podia esquecer-se da vileza de sua vida.

Já não era aquela formosura, suas ancas já estavam esgotadas de tantas idas e vindas, os seios já não mais era atrevidamente apontados para frente – sentia-se decadente.

Mas o que a levara a desperdiçar a vida?

Um sonho de fazer a vida na cidade ou simplesmente burrice?

Olhou para seu passado e nada viu. Olhou para o futuro e viu menos ainda.

E seu presente descortinava-se diante de seus olhos, impassível, inútil: um quarto horrível, um banheiro encardido e sem janela, sua pele flácida, a falta de perspectiva.

Já não sou mais querida. – pensou.

Ao abrir o trinco e fazer correr a janela, o calor do dia lhe atingiu, bufando, fazendo-a até a enjoar, revirando seu estômago e pulsando o fundo de seu olho.

Ruídos da vida diurna chegavam a seus ouvidos que se esforçavam para reconhecer os sons – ela era notívaga e o que conhecia era o som da noite.

O barulho monótono do dia, com seus milhares de ruídos que o compunham tornou-se uma melodia monocórdia que levava à sua mente ainda entorpecida a vontade de dormir novamente.

Preciso comer. – pensou – Quem vai querer uma velha, ainda por cima esquelética?

Procurou por restos da noitada, mas nada encontrou a princípio.

Revirando algumas almofadas achou um pacote azul de torradas salgadas, jogado num canto do quarto desarrumado.

Comeu-as e logo viu que não eram da noitada anterior. Mas não porque lembrava, e sim pela consistência estranha e meio úmida das torradas, bem como pelo gosto álacre que delas saía.

Não faz mal. – pensou.

Não tinha a menor vontade de sair à rua. Sua pele alva estava marcada pelas mãos que a seguraram gentil, mas impiedosamente no correr da noite.

Sentiu um vazio. Mesmo ali, naquele quarto abarrotado de tarecos e lembranças, sentia-se oca.

Aquele quarto a deprimia: as paredes manchadas, a cama lascada e bamba, uma penteadeira de fórmica rosa, horrível, as cortinas puídas...

Minha vida e labuta por essa pocilga? Tanto suor e doenças para isso? – vociferou feroz num ataque veemente à penteadeira que a fitava, muda.

Vestiu-se de maneira comportada, desceu as escadas temendo encontrar-se com alguém, mas tudo o que viu foi sua sombra a seguir-lhe e o barulho de seus saltos nas escadas de madeira velha. A presença humana apenas emanava, apenas era subentendida naquele lugar lúgubre.

Uma dupla de soul tentava arrecadar algumas moedas na rua, dois negros tocavam, o primeiro, um sax de metal amarelo todo amassado, o outro, um violão com apenas quatro cordas.

Tinham o rosto vincado e não eram menos decadentes que a caixa do sax aberta no chão, com seu forro vermelho desbotado e algumas míseras moedas no fundo.

Passou direto por eles ignorando os apelos e as cantadas – sentia-se só: tantos homens e nenhum para amar. Tanto sexo e nenhum amor...

Que vida era aquela?

Resolveu tomar um café. Entrou em uma bitaca e pediu um expresso forte: isto sim lhe daria forças para prosseguir empurrando a vida porca adiante.

O café fumegante a tirou do seu torpor e acordou sua alma, que acabrunhada sentiu-se apenas um pouco mais consciente da desgraça em que estava metida.

Resolveu passear pelo parque, observar os pombos que despreocupados ciscavam chão, ignorando que não possuíam braços, nem sentindo falta deles.

Chegou até a achar alguma graça na vida ao olhar as avezinhas no seu arrulhar, inocentes.

Passou horas a deleitar-se com os pombos e alguns transeuntes, cumprimentando ocasionalmente algum cavalheiro que porventura lhe acenasse educadamente.

Queria que este mundo acabasse, queria voltar ao interior, ao beijo com afeto, ao abraço sincero, largar tudo, mas não podia.

Havia um homem.

Um homem que, solícito, lhe oferecera ajuda logo que descera do ônibus vindo de sua terra, um homem que lhe ajudou, lhe dera abrigo e que agora a controlava, e que eternamente lhe deveria dinheiro, pois nunca conseguiria lhe pagar...

COISAS DE PEIXES - Ego talis sum, ergo patior


1. Viver uma paixão platônica
O pisciano tem a capacidade de se apegar ao sentimento idealizado durante anos - sem o crush saber disso. Ele entende bem o que é se apaixonar por alguém, sem nenhuma perspectiva de relacionamento.

2. Ajudar alguém que não conhece
Com uma capacidade gigante de doação, o pisciano está sempre disponível para auxiliar todo mundo ao seu redor. Fazer o bem, sem importar a quem, é algo que aquece seu coração.

3. Perdoar um colega traíra
Há quem diga que Peixes é "bobo" por relevar determinadas situações que acontecem com ele. Muita gente, aliás, não consegue entender sua capacidade de perdoar. Só não se engane: ele perdoa, mas faz com que o outro se sinta culpado pelo que fez.

4. Sumir e deixar a turma preocupada
Chá de sumiço é com ele mesmo! O nativo de Peixes evapora e aparece com bastante facilidade. Esta é a forma que ele encontra de se proteger, quando necessário, e resgatar suas energias.

5. Ser confidente de todos os amigos
A habilidade de escuta do pisciano o torna extremamente acolhedor. Isso porque ele sempre faz o exercício de se colocar no lugar do outro, num ato de humanidade e compreensão.

6. Sofrer sem motivo
O nativo de Peixes adora sofrer sem ter um porquê. Detalhe: ele acredita tanto na dor momentânea que é capaz de vivê-la intensamente naquela ocasião e, depois, nem lembrar porque estava se martirizando.

7. Ficar mal pela energia ruim de outra pessoa
Tem a capacidade de absorver não só a energia de um ambiente como a de qualquer indivíduo à sua volta, já que é extremamente sensível. Por isso, é importante criar mecanismos de defesa para se proteger.

8. Sentir-se incompreendido
É muito comum o pisciano achar que ninguém o entende. Isso ocorre porque os outros realmente têm dificuldade de acessar a profundidade característica do signo.

9. Fazer a egípcia para evitar treta
O signo mais "paz e amor" não gosta de arrumar briga. Para não ter que discutir com alguém, muda de assunto ou finge que não entendeu. Ou, ainda, some por um tempo e depois reaparece como se nada tivesse acontecido.

10. Confundir sal com açúcar
Se não aconteceu exatamente isso, com certeza foi algo parecido. Quem é de Peixes se confunde com uma frequência bem elevada, unicamente por falta de atenção. Além da facilidade de desviar o foco, sua imaginação está sempre ativa, permitindo com que se mantenha distante da realidade.

11. Mudar de opinião 300 vezes
Como Peixes se mistura facilmente, absorvendo a energia de quem está à volta, acaba mudando de opinião muitas e muitas vezes. Também se permite ser influenciado. Detalhe: tem consciência de ambas situações.

12. Procurar algo que não sabe o que é
Isso porque o nativo vive com o sentimento constante de que falta alguma coisa em sua vida. Por isso está sempre à procura de algo que lhe traga a sensação de plenitude - mesmo que não saiba o que seja isso.

13. Inventar algo para fugir da responsabilidade
Verdade seja dita, o nascido em Peixes elabora desculpas infinitas para fugir da realidade, sobretudo quando ela se mostra desafiadora. Pode se isolar, desenvolver dependência e até um sentimento de vitimismo. É capaz de viver num mundo de ilusões pela facilidade que tem de mergulhar na sua imaginação fértil. Mas quando a verdade aparece, aí vem a frustração.

Paraíso da Neve


Tirei essa foto usando um filtro Infravermelho e tratei depois. Fica sensacional, não?

Seios *

Teus seios me encantam
Quantas vezes sonhei em tocá-los
Túrgidos, lindos

Que delícia é abraçar-te e sentir-lhes o volume
Queria eu sentir-lhes a pele
Macia e alva

Rodear os mamilos até que eles
Eretos apontassem para o céu
Demonstrando prazer

Beijaria-os carinhosamente,
Um calor gostoso desceria por teu corpo
Instalar-se-ia ele sabes tu onde

Mordiscaria-os, acariciaria-os
Arrepiando todos os teus pêlos
Deixar-te-ia maluca de prazer

E com as mãos em concha, por trás
Ocultaria do mundo estas belas obras
Abraçando-te e sentindo teu perfume

Sentiria as formas arredondadas
Os mamilos pressionando minhas palmas
Teu coração cada vez mais acelerado
Teus suspiros cada vez mais profundos

E finalmente, consumaria meu amor,
Lentamente, prazerosamente
Levar-te-ia à um mundo de fantasia e prazer
Da mais delicada forma possível

"I like her; I could watch her the rest of my life. She has breasts that smile. Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? "

* Premiada em IV Concurso Livre de Poesia, 1998
 

Vidas (se/em) vão



Era outono, as folhas das árvores, amarronzadas, alheias ao que se passava naquele apartamento continuavam caindo de seus galhos, despedindo-se de suas companhias.

- Não! Não posso me separar de você! - vociferou ela, sua voz entrecortada pelo ruído do trem que passava diante de sua janela naquele bairro do subúrbio.

- Estou grávida!

- Estou perdido - pensou ele - acuado num canto do quarto, percebeu a palavra grávida entre o ensurdecedor barulho do trem - Vou estragar minha vida!

A moça, em prantos, quase histérica, começou a tremer, dizia coisas sem nexo, sem rumo, ambos jovens, pobres, que fariam da vida ???

Ela cada vez mais fora do ar, ele cada vez mais encurralado, e num átimo, ela começou a atirar coisas que estavam a seu alcance - primeiro um cinzeiro parcialmente cheio, que não o atingiu, depois um pato estúpido de porcelana que se espatifou na parede a seu lado.

- Meu Deus - essa mulher está louca! - Tinha de sair dali, mas seus pensamentos eram mais lentos que as coisas que voavam em sua direção.

Começou a caminhar lentamente em direção à porta, mais uma peça de porcelana quase o atingiu - trecos baratos pensou ele - grávida, grávida - aquela palavra lhe martelava a razão, mas tinha de sair dali - não era possível!

A moça gritou para que não fugisse, dizendo que se mataria - ai, essa culpa eu não vou carregar, pensou ele - e num salto final atirou-se pela porta afora.

Desesperado, seu coração quase estava a saltar fora da boca, tremia, como podia ter assim num ínfimo instante de prazer, condenar sua vida ?

Ouvia os gritos ensandecidos da moça pela janela, mas decidido, subiu em sua moto e bateu a partida - nada - outra vez - nada - burro, tenho que ligar a chave!

A moto começou o seu pipocar e engrenando ele se mandou, sem rumo, apenas queria sair dali... A visão da rua cheia de folhas de outono amarronzadas o assustou ainda mais... Parecia um colchão macabro para sua angústia.

De volta ao apartamento, a moça não sabia o que fazer, se mataria, ele não iria voltar, pensou, mas como morrer ?

Sim, pensou num filme que vira uma vez, suicidar numa banheira faz um grande efeito - marca bem a mente dos que ficam - queria se vingar da solidão e de seu namorado.

Na rua a moto cada vez mais acelerava, os pensamentos o impeliam a acelerar mais e mais, os sinais e placas já não eram discerníveis pela sua razão - mas era de madrugada, pensou ele, não vou trombar com ninguém... Apenas uma garoa incomodava.

Lentamente a moça encheu a banheira de água morna, enquanto escovava os cabelos e passava batom - queria estar linda, pensou.

Foi até a cozinha e pegou a sua melhor faca, uma de cabo de madeira, ponta torta, velha, mas que sempre que o velhinho passava gritando para amolar facas ela amolava, O cabo da faca já estava até meio podre, mofado, mas era sua amiga preferida - já fizera várias ameaças de suicídio com ela, mas agora era sério, como viveria com um filho sem pai ?

O rapaz pensava, tenho que chegar em algum lugar, tenho que parar e pensar, mas a moto tremia debaixo de seu corpo e ele cada vez mais se embriagava com o barulho.

A rodovia se aproximava, sim, era escura, não teria de ver nada, só ele e seus pensamentos, só ele e o vento e as folhas, assim poderia dirigir até a cidadezinha mais próxima e tomar um trago num boteco qualquer, e assim esquecer-se da noite.

Seu cabelo estava penteado, o batom reluzia, e ela tirou a roupa e mirou-se no espelho - se achou até sexy, com os cabelos armados, e os seios empinados - ela não era qualquer uma, mas estava decidida.

Ligou o rádio, uma musiquinha agradável a fez sentir-se mais desejada ainda, mais sensual, entrecortada às vezes pelo locutor que dizia alguma notícia ou anunciava o prefixo da rádio.

O rapaz tomou estrada, o vento frio lhe cortava a face, que ruborizava, a garoa o espetava, o atordoando cada vez mais - Tenho que chegar, tenho que chegar lá - no bar eu penso o que fazer.

A moça, toda nua, foi até a banheira, um misto de excitação, tesão e medo tomava conta de seu corpo, mas parecia fora da realidade, só o que sentia era aquele calor úmido no centro de seu corpo e só o que via era a banheira.

Entrou na banheira, e um arrepio de prazer passou pelo seu corpo, deitou-se na água, tomando o cuidado de deixar seus cabelos de fora e de não borrar o batom. Pensou no seu namorado, onde estaria aquele desalmado ? Pegou da faca e decidida, fez dois cortes precisos, um em cada pulso.

O sangue começou escorrer, escuro, lento, sabia ela que era sangue venoso, mas o que importava ?

Devagar, colocou a faca na borda da banheira, e colocou os dois braços dentro da água, enquanto fitava a água tingir-se de vermelho, em espirais que tinham um quê de beleza.

Na moto, o rapaz pensava em cada minuto daquele namoro, arrependia-se, era para ser apenas uma diversão, era combinado entre ambos que não se envolveriam mais do que o necessário - para ambos era apenas uma maneira de saciar desejos e aplacar a solidão. 

Mas ela lhe golpeara com grilhões de um bebê por vir, atara o nó de sua forca  

- Não quero isso, quero viver!

Caminhões passavam e piscavam-lhe os faróis, mas aturdido ele não sabia que estava com o seu desligado. Via nitidamente a rodovia sob a luz da lua, sem se dar conta que não havia ligado o farol.

Um frio começou a tomar conta da moça, seria a água esfriando - pensou ela, mas não, era o anélito gelado da morte que já se fazia sentir, que lhe dava um sono, um sono gelado, o mesmo frio que sentia o jovem em sua moto na estrada, pensando, que iria fazer, que aconteceria, que ao virar em uma curva, se deparou com um mostro de mais de dezoito rodas cortando a curva pela tangente e que lhe pregou sua vida na grade do motor, iluminando-o com potentes faróis azuis, que o jovem não tivera tempo nem de saber quantos eram...

Na banheira a jovem mergulhava num sono gelado, e ainda teve tempo de escutar no rádio que uma moto havia colidido de frente com uma carreta na rodovia, antes de dar seu último e sensual suspiro, quando uma onda de prazer percorreu seu corpo e ela sentiu que a morte era quase como um gozo, tivera medo de perder seu amor, e nem grávida estava...

Mas não importava perder a vida... Reverberavam em seu corpo arrepios da morte...

A vida nunca teve sentido mesmo...

A VALISE

A VALISE

Abandonado aos meus pensamentos em uma estação de trem, vendo o lento passar e repassar de pessoas e animais, com o pensamento divagando entre os meandros intrincados da mente, sinto sentar-se ao meu lado um senhor de meia idade, com uma sobrecasaca em péssimo estado, mas com uma valise na mão que daria inveja ao mais alto executivo de qualquer lugar do mundo.

O velho agarrava-se à maleta como se ela fosse a sua única conexão com o mundo real, ele alisava-a com um ricto de satisfação em seu rosto, imaginando talvez o deleite de seu conteúdo.

Mais tempo se passou e comecei a reparar no andrajoso senhor grudado em sua valise ao meu lado, e subitamente a estação pareceu desaparecer de minha visão: só o que tinha em mente era o conteúdo daquela valise e o que imaginaria o senhor.

O banco de madeira antigo era desconfortável, ainda mais para um velho daquela idade, mas o mesmo não se mexia, seus olhos brilhavam, como se estivesse em um êxtase inexplicável.

Ouvia eu o pulsar de minhas veias, imaginava-me atirando-me sobre o velho e arrancando-lhe a caixa de pandora das mãos, mas minha razão me impedia de tal fato.

Mas o dia foi baixando, e a noite começou a se fazer sentir - e nós dois ali, parecíamos disputar quanto tempo ficaríamos naquele banco.

Um fiscal da estação passou e resmungou algumas palavras, mas em meu torpor não as reconheci, e o velho, olhos fixos no vazio, mantinha a valise firmemente guardada entre suas calejadas mãos.

Que tesouro encerrar-se-ia dentro daquela maleta linda, nas mãos de tão triste figura ?

Pensei em perguntar-lhe, mas sua alienação parecia tirar-lhe do mundo real e colocar-lhe num estado autista, chegava até a balançar-se no banco como que embalado por uma melodia silenciosa.

A noite finalmente chegou, e os ventos gelados do sul se fizeram sentir - minha pele arrepiava-se, mas o velho parecia nada sentir.

E num dado instante qualquer, o velho se inclinou para a frente e dormiu, ou parecia estar dormindo.

Saí para dar uma volta e esticar as pernas e voltar um pouco à realidade, fui ao imundo banheiro da estação, onde um limpador de banheiro fitava a imundície do mesmo com uma impassível indiferença, apoiado ao cabo da vassoura.

Saltando por entre as poças do alagado chão, após ter usado do fétido local, saí e voltei à mesma cena estranha: a estação parecia desaparecer e só o que via era o velho no banco.

O que mais me intrigava era que ele estava na mesma posição, e comecei a pensar que podia ele não estar apenas dormindo.

Aproximei-me do banco e tocando-lhe um dos ombros ele me fitou com os olhos vazios, perdidos no infinito e me disse apenas algumas palavras referenciando-se à mala e ao seu conteúdo - dizia ele que o conteúdo daquela mala era suficiente para acabar com todos os ímpios do mundo, acabar com toda a malícia e toda a sujeira.

Mas ele confessou-me que morrendo não tinha coragem de abrir a maleta, pois não sabia se poderia ver o que aconteceria, não teria certeza de que seu legado funcionaria.

Foi aí, num átimo, que propus-lhe que eu abrisse a maleta naquele momento e nós dois fitássemos o que continha ela. Imaginava eu que poderia ter explosivos suficientes para acabar com a estação.

O velho pressionou ainda mais a maleta até seus dedos ficarem brancos, mas a pressão foi lentamente sendo aliviada: será que ele me entregaria a valise ?

Por fim ele me fitou novamente com os olhos baços, sua íris já era branca, catarata talvez, e me diz que me sente e que me prepare pois ele abriria a maleta e acabaria com o mundo.

Pensei em correr, em sair dali o mais rápido possível, perguntei-lhe se havia explosivos na mala e ele me disse que não: era magia.

Comecei a duvidar do estranho poder daquela pequena, mas linda valise e indaguei-o quanto tempo a possuía, ele me respondeu que a mais de duzentos anos.

Absurdo, pensei, estou falando com um louco, só era essa explicação que vinha à minha mente.

Eis pois que o velho me diz para prestar atençao, pois duzentos anos para ele já eram um fardo muito longo para se suportar - vinha ele pensando que a humanidade poderia se redimir de seus pecados e se tornar pura novamente, mas ele começou naquele momento a ter certeza de que nunca as coisas mudariam - o ser humano vil seria sempre vil.

Abriu um dos braços e me mostrou a imunda estação, com seus pedintes, bêbados, brigões e meninos sem casa, como cachorros se aliviavam ali mesmo, papéis espalhados, o olhar hipócrita dos transeuntes.

E lentamente se aprumou, e abriu o primeiro trinco da maleta: um trovão se fez soar do lado de fora da estação - chuva, pensei, vou ter que voltar para casa debaixo de chuva, odeio isso.

Destravou o segundo trinco e a chuva fazia um ruído ensurdecedor no teto de zinco da estação - naquele momento comecei a ser tomado de uma apreensão terrível, um mal estar e disse ao velho, que me respondeu que tivesse calma, porque dali alguns minutos tudo teria acabado.

Então ele abriu a valise, e dentro dela não havia nada, mas o que aconteceu foi devastador: uma sombra negra começou a envolver tudo ao nosso redor, tudo parecia estar sendo engolfado pela escuridão, enquanto o velho sorria, feliz, com sua criação.

O mundo estava acabando - nem o ruído da chuva não se escutava mais, só se viam trevas e a face do velho que cada vez mais irradiava felicidade.

Num ímpeto tentei fechar a mala, mas minhas mãos nunca chegaram perto dela, o fim estava se mostrando para o mundo: o velho libertara as trevas que estavam engolindo tudo o que estivesse perto.

Tentei me levantar e correr em direção do que eu achava que era a saída da estação, mas não havia mais nada além de trevas, tudo escuro, tudo igual.

E o velho, com uma luz estranha em seu rosto disse que tinha valido a pena esperar aqueles duzentos anos, para ver toda a criação ser engolfada pelo mata borrão divino, que ele carregara por todo aquele tempo.

Ele era um enviado divino, com o cargo de acabar com o mundo se ele não se mantivesse de uma forma aceitável e limpa.

Mas sempre teve o coração bom e temia estragar todo o mundo, mas seu papel era definido, sua missão era dizimar a raça humana, para que Deus pudesse reiniciar sua criação novamente.

E assim foi que fiquei só na escuridão, eternamente com o velho que nada mais fazia senão balançar-se no que antes era o banco da estação, mas que agora era apenas uma sugestão de forma.

Fui tornado imortal como ele, e juntos iremos vagar pelas trevas.
 
Nunca poderia imaginar um enviado com uma simples maleta de escuridão dando cabo no mundo, mas assim o foi.

E eu, desolado, nada pude, nada posso fazer, preso na escuridão...

Cada um tem a sua Maçonaria

Recebi e repasso citando as fontes, pois achei o texto magnífico!!!

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In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas (Na necessidade una, na liberdade dupla e em tudo caridade)

Cada um de nós chega à Loja com a sua história, o seu ritmo, a sua própria música interior. E embora sigamos a mesma pauta, o Rito, os Landmarks, os símbolos que nos unem, a forma como cada um vive a Maçonaria não será, nem deve ser, igual. E isso, para mim, não é um problema. É uma riqueza.

É esta riqueza que prova que a Maçonaria não é uma linha de montagem de homens iguais, mas uma oficina onde cada um talha a sua pedra com ferramentas próprias, marcando no silêncio o compasso da sua jornada. Essa diversidade de caminhos ilumina as mesmas verdades a partir de ângulos diferentes, revelando detalhes que um olhar único jamais veria. Se todos pensássemos igual, a Loja seria um eco oco.

É no encontro das diferenças que encontramos novas luzes

A minha forma de estar não é mais certa do que a de qualquer outro irmão, mas também não é mais errada. É minha e apenas a minha. Moldada por experiência, erro, persistência e sonho. Pode ser diferente, mas não deixa de caber dentro dos mesmos princípios que nos sustentam.

Vejo a Loja como um templo vivo, onde a palavra circula, se debate e se aprimora. Onde a iniciativa é combustível e a crítica construtiva é maço e cinzel.

E, tal como valorizo o impulso de inovar, reconheço também que há práticas que, justamente por terem resistido ao tempo, são pilares que devemos preservar. O segredo está no equilíbrio, mudar o que precisa de mudança, guardar o que merece ser guardado.

Com o tempo, aprendi que as ideias têm destinos tão diversos como as pedras no leito de um rio. Algumas são acolhidas como chuva que faz florescer o terreno, outras são lapidadas pelo debate, ganhando forma e brilho. Mas há também as que se perdem à margem, não por falta de valor, mas por seguirem um curso diferente do habitual. O desconhecido, por vezes, assusta mais do que o imperfeito.

É natural que nem todos avancem no mesmo passo, cada um vive a Maçonaria na medida da sua entrega e disponibilidade. O que importa é que, quando caminhamos, o façamos na mesma direcção.

Acredito que, em Loja, ser Oficial não é um trono, é um banco de trabalho. O próprio Ritual lembra que "Oficial" é, simplesmente, quem tem a seu cargo um serviço, não um título honorífico ou uma posição de hierarquia militar. Servir a Oficina é facilitar o trabalho de todos, não controlar cada golpe de maço.

A pergunta deve apenas ser: "Isto serve a Loja e a Ordem?".

Se servir, a Loja deve trabalhar em uníssono para lhe dar forma.
Se não servir, ainda assim terá cumprido a sua função: a de nos ensinar algo no processo.

Não defendo uma Maçonaria sem forma nem disciplina, sem elas, o templo cai, mas também não defendo uma Maçonaria que confunda unidade com uniformidade, ou prudência com paralisia. Há quem viva à sombra do que já foi feito, temendo qualquer risco. Eu creio que a tradição não é um cofre onde se guarda o passado, mas uma tocha que se passa para iluminar o caminho adiante.

No fim, cada um talha a sua pedra. Não serão todas iguais, nem precisam ser.

Se a minha Maçonaria não tem de ser a tua, é porque a nossa é suficientemente vasta para acolher visões diferentes que, juntas, se elevam num templo maior do que cada um de nós.

É a aceitação da imperfeição de todas as pedras que torna o Templo justo e perfeito

João B.,  M. M. – R. L. Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)

Fonte

Publicado no Blog "A Partir Pedra" em 13.09.2025

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