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quinta-feira, 17 de maio de 2012

O BRASIL EXPLICADO EM GALINHAS - Luís Fernando Veríssimo

Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e o
levaram para a delegacia.

D - Delegado
L - Ladrão

D - Que vida mansa, heim, vagabundo? Roubando galinha para ter o que
comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!

L - Não era para mim não. Era para vender.

D - Pior, venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio
estabelecido. Sem-vergonha!

L - Mas eu vendia mais caro.

D - Mais caro?

L - Espalhei o boato de que as galinhas do galinheiro eram bichadas e
as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos
enquanto as minhas botavam ovos marrons.

D - Mas eram as mesmas galinhas, safado.

L - Os ovos das minhas eu pintava.

D - Que grande pilantra... (mas já havia um certo respeito no tom do
delegado...)

D - Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...

L - Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar
mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os
preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos
outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um
oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio..

D - E o que você faz com o lucro do seu negócio?

L - Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas.
Comprei alguns deputados e senadores do PT. Dois ou três ministros do
PMDB, PDT, PSB. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e
ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.

O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a
cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada.
Depois perguntou:

D - Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?

L - Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o
que tenho depositado ilegalmente no exterior.

D - E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?

L - Às vezes. Sabe como é.

D - Não sei não, excelência. Me explique.

L - É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma
coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo
uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu
me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora fui
preso, finalmente vou para a cadeia. É uma experiência nova.

D - O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.

L - Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!

D - Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...


Luís Fernando Veríssimo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Entendendo o Hino da Maçonaria

Gostei do texto e ainda por cima, gosto muito dos autores!

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Retirado de: http://www.noesquadro.com.br

Publicado em 7 de fevereiro de 2012

Da luz que de si difunde
Sagrada Filosofia
Surgiu no mundo assombrado
A pura Maçonaria


A Idade Média é considerada a "idade das trevas", os "mil anos de
escuridão", pois a Igreja Católica impedia a evolução da ciência e
controlava a educação, promovendo a submissão da razão em nome da fé. Após o
fim da Idade Média, tem-se a Idade Moderna, na qual surgiram o Iluminismo e
a Maçonaria. A Maçonaria é considerada, junto de outras instituições, a
responsável pela difusão do ideal de livre busca da verdade.

Maçons, alerta!  ]
Tendes firmeza  ]     Refrão
Vingais direitos  ]
Da natureza       ]

Os "direitos da natureza" são os direitos naturais, defendidos pelos
jusnaturalistas. Trata-se dos direitos considerados próprios do ser humano,
independente de época e lugar. Entre esses direitos, destaca-se os direitos
a vida, a liberdade, a resistência à opressão, e a busca da felicidade.
Esses direitos foram, em outras épocas, tomados do homem através da tirania
e do fanatismo. E cada maçom deve defendê-los.

Da razão parto sublime
Sacros cultos merecia
Altos heróis adoraram
A pura Maçonaria

A alegoria da caverna, de Platão, mostra o homem cego e acorrentado pelas
amarras da ignorância, e ensina que a descoberta do mundo deve se dar de
forma gradativa. O homem ao sair da caverna sofre como um recém-nascido
quando do parto, mas ambos ganham um mundo novo. Após os anos de "mundo
assombrado", a humanidade assiste o nascimento da Maçonaria, uma Ordem cujos
ritos cultuam a razão, retirando homens da caverna da ignorância e
dando-lhes a luz de uma nova vida. Talvez por isso da Maçonaria ser berço de
tantos heróis e libertadores.

(Refrão)

Da razão suntuoso Templo
Um grande Rei erigia
Foi então instituída
A pura Maçonaria

O grande Rei erigindo um suntuoso Templo da razão é o Rei Salomão, tido como
possuidor de toda a sabedoria. E é da construção de seu templo que
alegoricamente foi instituída a Maçonaria, visto ter na lenda dessa
construção o terreno fértil para a transmissão de muitos de seus
ensinamentos.

(Refrão)

Nobres inventos não morrem
Vencem do tempo a porfia
Há de séculos afrontar
A pura Maçonaria

"Porfia" significa "disputa". Apenas as ideias nobres vencem a disputa
contra o tempo. A Maçonaria, por sua nobreza de ideais, tem sobrevivido ao
passar dos séculos, ao contrário de muitas outras instituições que
sucumbiram diante do tempo, sempre implacável.

(Refrão)

Humanos sacros direitos
Que calcara a tirania
Vai ufana restaurando
A pura Maçonaria

"Calcar" significa "pisotear", "esmagar", enquanto que "ufana" significa
"orgulhosa", "triunfante". Em outras palavras, a estrofe diz que: a pura
Maçonaria vai triunfante restaurando os sagrados direitos humanos que foram
pisoteados pela tirania.

(Refrão)

Da luz depósito augusto
Recatando a hipocrisia
Guarda em si com o zelo santo
A pura Maçonaria

A Maçonaria guarda em si, com o devido cuidado, a luz da razão. Em seu
interior, a hipocrisia vai sendo "recatada" (envergonhada), enquanto que a
verdade é exaltada. A razão, duas vezes citada no hino, está diretamente
ligada à verdade, esta o oposto da hipocrisia, pois não existe razão sem
verdade, assim como a verdade só é encontrada com a razão.

(Refrão)

Cautelosa esconde e nega
À profana gente ímpia
Seus Mistérios majestosos
A pura Maçonaria

A Maçonaria mantém seu caráter sigiloso e grupo seleto em proteção de seus
augustos mistérios, para que aquelas pessoas ofensivas ao que é digno não
possam alcançá-los.

(Refrão)

Do mundo o Grande Arquiteto
Que o mesmo mundo alumia
Propício, protege e ampara
A pura Maçonaria

E por fim, a Maçonaria é posta como instituição sagrada, da qual o próprio
Grande Arquiteto do Universo é favorável, e por isso a protege.

(Refrão)


COMENTÁRIOS FINAIS:
Questão interessante sobre esse Hino, que recebeu o nome genérico de "Hino
da Maçonaria" por não ter sido originalmente nomeado, é quanto a sua
autoria. Várias fontes maçônicas o colocam como sendo letra e música de D.
Pedro I. Não há documento algum que corrobore com essa teoria. Outras tantas
fontes, inclusive o GOB, apontam o autor como sendo Otaviano Bastos, o que é
impossível. O próprio Otaviano escreveu em sua obra "Pequena Enciclopédia
Maçônica" que a música é de D. Pedro I, mas a letra é de autor desconhecido.
Há ainda outra questão relacionada ao hino e que merece atenção. Alguns
escritores que se propuseram a interpretar o hino, ao se depararem com o
termo "recatando a hipocrisia", não compreendendo seu real significado,
cometeram o gravíssimo erro de modificar a letra do hino para "recatada da
hipocrisia", de forma que o hino pudesse se encaixar devidamente aos seus
entendimentos, em vez do contrário. Ora, imagine modificar a letra de um
hino musicado por D. Pedro I, cujo valor histórico e maçônico é
incalculável, para se alcançar a interpretação desejada… é o que podemos
chamar de "estupro da história".

CONSULTAS:
GUIMARÃES, José Maurício: Dissecando o Hino da Maçonaria. Portal "Formadores
de Opinião" e Portal "Samaúma".
RIBEIRO, João Guilherme da C.: O Livro dos Dias 2012. 16a Edição. Infinity.
RUP, Rodolfo: O Hino Maçônico Brasileiro. Portal Maçônico "Samaúma".

segunda-feira, 14 de maio de 2012

McMaçonaria

Publicado em 28 de abril de 2012 em "No esquadro"


Estava eu outro dia conversando com um irmão e amigo que pertence a
outra Loja e Obediência, esta tão regular e tradicional quanto a da
qual sou membro. Era nosso primeiro encontro após uma visita que ele
havia feito à minha Loja.

Papo vai, papo vem, e eis que o irmão pergunta se poderia
indicar um candidato para ingressar em minha Loja. Eu, conhecendo a
idoneidade moral desse irmão, respondo afirmativamente. Afinal de
contas, é direito de todo Mestre Maçom regular indicar candidatos e,
se ele havia
escolhido a minha para realizar a indicação, era motivo de honra para mim.

Porém, a dúvida ficou no ar, e logo questionei o irmão do porquê dele
não realizar a indicação em sua própria Loja, já que eu sabia que ele
era inclusive o Secretário da Loja, e poderia acompanhar o processo
para a Iniciação mais de perto.

Tenho que confessar que a resposta não me surpreendeu muito, visto ser
algo cada dia mais comum de ser visto na Maçonaria Brasileira: o irmão
se queixou de sua Loja, dizendo que a mesma está sem conteúdo,
reunindo-se apenas para
bater malhete, isso quando não está ocupada com brigas internas e externas;

reclamou ainda que toda tentativa dele e de outros irmãos mais novos
de inovar é frustrada pelos "donos da Loja". E tendo o irmão visitado
algumas vezes nossa Loja e observado seu modus operandi, se sentia
mais à vontade
para indicar um amigo no qual enxergava os princípios maçônicos
básicos e o interesse no aperfeiçoamento moral e espiritual.

Compreendendo a situação do irmão, reafirmei minha concordância e
disponibilidade em avalizar tal indicação em minha Loja, dizendo que
seria para nós uma honra receber o futuro afilhado dele, é claro que
após a devida sindicância e seguindo todos os trâmites de costume. Ao
tocar no assunto, o
irmão aproveitou para perguntar como era nosso processo de
sindicância, os documentos, exigências e custos para ingresso na Loja.
Sendo ele um irmão sempre muito interessado e participativo, não me
incomodei de explicar todo
o processo, desde a indicação até a iniciação. Ao final, informei
ainda o valor do investimento para Iniciação, o qual cobre o kit de
Aprendiz (avental, luvas, ritual, broche, identidade, diploma, etc.) e
um jantar comemorativo em que o iniciado e sua família são
presentados a toda a
família da Loja.

Nesse momento, vi o espanto no rosto do irmão, que logo exclamou que o
valor informado era exorbitante, impraticável, e que o processo para
iniciação era muito burocrático. Ao escutar tais comentários,
perguntei-me como era
possível fazer o mesmo com menos tempo e recursos… não contive a
curiosidade e questionei: – E como é em sua Loja? –

O irmão então me respondeu que sua Obediência estava dispensando
muitas das exigências para a Iniciação, além
de isentar os candidatos da taxa do placet. Por conta disso, sua Loja
consegue fazer todo o processo para Iniciação em apenas um mês, e
cobra apenas R$50,00 do candidato.

Após escutar o irmão, fiquei refletindo por um momento sobre o
assunto. Eu já conhecia essa história "de outros carnavais" e meu
raciocínio era de que, de uma certa forma, um valor mais substancial,
o processo relativamente
demorado, e as exigências documentais como quase de um concurso de
policial federal, serviam como filtros, peneiras, para separar os
curiosos daqueles realmente interessados.

Todos aqueles documentos, entrevistas e consultas
teoricamente garantiam a qualidade mínima social e moral dos
indivíduos que pleiteiam ingresso na Maçonaria. Mas, será que aquela
fórmula "fast food" de Maçonaria estava funcionado para a Loja dele e
outras Lojas daquela
Obediência?

O que a Loja dele e outras da Jurisdição estavam fazendo, com a
anuência da Obediência, era proporcionar aos profanos um acesso rápido
e barato à Maçonaria. É o que podemos chamar de "McMaçonaria". A
questão é se isso é
realmente bom para os membros e para a Instituição. Pensando nisso,
perguntei ao Irmão quantos membros haviam iniciado na Loja dele nos
últimos dois anos. Ele respondeu que algo em torno de 50 novos irmãos.
– Uau – imaginei. Então perguntei a ele a média de membros por reunião
atualmente.
Ele sabia bem: uns 26 a 28 irmãos, a maioria de irmãos mais antigos,
apenas uns 10 membros da "nova safra". Então lancei a pergunta
derradeira… – E você sabe o nome desses 50 irmãos? – A resposta, é
claro, foi negativa. – Talvez
eu saiba de uns três deles – o irmão me respondeu.

Isso já era de se esperar… Como dito anteriormente, essa ideia não é
nova. Algumas Grandes Lojas dos EUA já haviam tentado algo pare cido
alguns anosatrás, porém de forma mais intensa e abrangente e, é claro,
foi um fracasso. Não somente causou alguns problemas internos, como
também impactou na
relação com outras Grandes Lojas no mundo, que não gostaram nem um
pouco dessa história.

Com a tática da McMaçonaria, a tal Obediência deve ter aumentado
consideravelmente o número de seus filiados. Já as Lojas que abriram
mão do conceito de células de "família maçônica" não obtiveram ganhos
reais em troca. Talvez, membros promissores, que se identificariam com
a Loja e seus valores quando em sua forma tradicional, se entregam à
desmotivação de serem mais uns entre dezenas e, ao frequentarem a
Loja, que perde sua própria identidade, acabam por também se
afastarem. Os agora maçons, que adquiriram um "lanche" rápido e barato
de Maçonaria, podem por fim não experimentar, degustar, saborear e
aproveitar a verdadeira essência da Ordem.

Enfim, a curto prazo parece algo ótimo, mas a longo prazo pode ser
prejudicial, assim como uma alimentação à base de fast food.

Luiz Medeiros M.:M.:

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