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segunda-feira, 14 de maio de 2012

McMaçonaria

Publicado em 28 de abril de 2012 em "No esquadro"


Estava eu outro dia conversando com um irmão e amigo que pertence a
outra Loja e Obediência, esta tão regular e tradicional quanto a da
qual sou membro. Era nosso primeiro encontro após uma visita que ele
havia feito à minha Loja.

Papo vai, papo vem, e eis que o irmão pergunta se poderia
indicar um candidato para ingressar em minha Loja. Eu, conhecendo a
idoneidade moral desse irmão, respondo afirmativamente. Afinal de
contas, é direito de todo Mestre Maçom regular indicar candidatos e,
se ele havia
escolhido a minha para realizar a indicação, era motivo de honra para mim.

Porém, a dúvida ficou no ar, e logo questionei o irmão do porquê dele
não realizar a indicação em sua própria Loja, já que eu sabia que ele
era inclusive o Secretário da Loja, e poderia acompanhar o processo
para a Iniciação mais de perto.

Tenho que confessar que a resposta não me surpreendeu muito, visto ser
algo cada dia mais comum de ser visto na Maçonaria Brasileira: o irmão
se queixou de sua Loja, dizendo que a mesma está sem conteúdo,
reunindo-se apenas para
bater malhete, isso quando não está ocupada com brigas internas e externas;

reclamou ainda que toda tentativa dele e de outros irmãos mais novos
de inovar é frustrada pelos "donos da Loja". E tendo o irmão visitado
algumas vezes nossa Loja e observado seu modus operandi, se sentia
mais à vontade
para indicar um amigo no qual enxergava os princípios maçônicos
básicos e o interesse no aperfeiçoamento moral e espiritual.

Compreendendo a situação do irmão, reafirmei minha concordância e
disponibilidade em avalizar tal indicação em minha Loja, dizendo que
seria para nós uma honra receber o futuro afilhado dele, é claro que
após a devida sindicância e seguindo todos os trâmites de costume. Ao
tocar no assunto, o
irmão aproveitou para perguntar como era nosso processo de
sindicância, os documentos, exigências e custos para ingresso na Loja.
Sendo ele um irmão sempre muito interessado e participativo, não me
incomodei de explicar todo
o processo, desde a indicação até a iniciação. Ao final, informei
ainda o valor do investimento para Iniciação, o qual cobre o kit de
Aprendiz (avental, luvas, ritual, broche, identidade, diploma, etc.) e
um jantar comemorativo em que o iniciado e sua família são
presentados a toda a
família da Loja.

Nesse momento, vi o espanto no rosto do irmão, que logo exclamou que o
valor informado era exorbitante, impraticável, e que o processo para
iniciação era muito burocrático. Ao escutar tais comentários,
perguntei-me como era
possível fazer o mesmo com menos tempo e recursos… não contive a
curiosidade e questionei: – E como é em sua Loja? –

O irmão então me respondeu que sua Obediência estava dispensando
muitas das exigências para a Iniciação, além
de isentar os candidatos da taxa do placet. Por conta disso, sua Loja
consegue fazer todo o processo para Iniciação em apenas um mês, e
cobra apenas R$50,00 do candidato.

Após escutar o irmão, fiquei refletindo por um momento sobre o
assunto. Eu já conhecia essa história "de outros carnavais" e meu
raciocínio era de que, de uma certa forma, um valor mais substancial,
o processo relativamente
demorado, e as exigências documentais como quase de um concurso de
policial federal, serviam como filtros, peneiras, para separar os
curiosos daqueles realmente interessados.

Todos aqueles documentos, entrevistas e consultas
teoricamente garantiam a qualidade mínima social e moral dos
indivíduos que pleiteiam ingresso na Maçonaria. Mas, será que aquela
fórmula "fast food" de Maçonaria estava funcionado para a Loja dele e
outras Lojas daquela
Obediência?

O que a Loja dele e outras da Jurisdição estavam fazendo, com a
anuência da Obediência, era proporcionar aos profanos um acesso rápido
e barato à Maçonaria. É o que podemos chamar de "McMaçonaria". A
questão é se isso é
realmente bom para os membros e para a Instituição. Pensando nisso,
perguntei ao Irmão quantos membros haviam iniciado na Loja dele nos
últimos dois anos. Ele respondeu que algo em torno de 50 novos irmãos.
– Uau – imaginei. Então perguntei a ele a média de membros por reunião
atualmente.
Ele sabia bem: uns 26 a 28 irmãos, a maioria de irmãos mais antigos,
apenas uns 10 membros da "nova safra". Então lancei a pergunta
derradeira… – E você sabe o nome desses 50 irmãos? – A resposta, é
claro, foi negativa. – Talvez
eu saiba de uns três deles – o irmão me respondeu.

Isso já era de se esperar… Como dito anteriormente, essa ideia não é
nova. Algumas Grandes Lojas dos EUA já haviam tentado algo pare cido
alguns anosatrás, porém de forma mais intensa e abrangente e, é claro,
foi um fracasso. Não somente causou alguns problemas internos, como
também impactou na
relação com outras Grandes Lojas no mundo, que não gostaram nem um
pouco dessa história.

Com a tática da McMaçonaria, a tal Obediência deve ter aumentado
consideravelmente o número de seus filiados. Já as Lojas que abriram
mão do conceito de células de "família maçônica" não obtiveram ganhos
reais em troca. Talvez, membros promissores, que se identificariam com
a Loja e seus valores quando em sua forma tradicional, se entregam à
desmotivação de serem mais uns entre dezenas e, ao frequentarem a
Loja, que perde sua própria identidade, acabam por também se
afastarem. Os agora maçons, que adquiriram um "lanche" rápido e barato
de Maçonaria, podem por fim não experimentar, degustar, saborear e
aproveitar a verdadeira essência da Ordem.

Enfim, a curto prazo parece algo ótimo, mas a longo prazo pode ser
prejudicial, assim como uma alimentação à base de fast food.

Luiz Medeiros M.:M.:

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