Other stuff ->

terça-feira, 7 de outubro de 2025

É o Homem agressivo por natureza?

O ser humano encerra em sua essência pulsões dentro de seu aparelho psíquico que lutam para vir à tona. Freud descreveu estas pulsões sendo de duas naturezas ou grupos: uma de natureza sexual (ou de amor) e uma de natureza agressiva.

A própria constituição da sociedade pelos humanos primevos se deu pelo fato de se agruparem em bandos em que os machos dominantes mantinham as fêmeas por perto para acasalarem-se e o trabalho em grupo mostrou ser mais eficaz para desempenhar tarefas que demandariam maiores esforços de um só indivíduo.

O fato da procura do acasalamento é uma prova da pulsão de amor ou sexual, que leva os indivíduos, pressionados pela força destes mecanismos oriundos do fundo de seu aparelho psíquico (do ID) a manter sua espécie, preservar a sobrevivência do bando.

Mas as pulsões de morte ou de agressividade têm de ser sublimadas para o convívio social – aí é que entra o ponto em questão: é o ser humano agressivo?

No meu ponto de ver, filosofando-se um pouco acerca do fenômeno de sublimação das pulsões agressivas, vê-se que a energia potencial agressiva recalcada é muito menos vazada para o exterior, por mecanismos de proteção do próprio aparelho psíquico.

Mas às vezes, o caudal de forças ou pulsões irrompe de uma tal forma que o homem se torna agressivo.

Mas porque o potencial agressivo é muito mais forte e muito menos descarregado, se dá um fenômeno de uma represa – de tão cheia, se se encontra uma brecha para escapar, explode todo o dique e irrompe todo o caudal destrutivo.

Então, ao meu ver, o homem tem seu potencial agressivo convenientemente recalcado por defesas do superego que tornam o indivíduo apto a viver em sociedade.

Isso me faz pensar que latentemente, o homem é agressivo, mas que as pulsões ficam armazenadas e hermeticamente seladas pelos sete selos do superego.

Uma vez rompidos estes selos apocalípticos , seja por falta de parâmetros, seja por falta de orientação, tem-se o ser humano em seu estado primitivo, até mesmo pré-histórico, onde suas pulsões podem aflorar livremente.

Estas barreiras do superego são construídas, estruturadas no desenvolvimento psicossocial do indivíduo. No caso de serem débeis, fica fácil a criação de maníacos e perversos...

Temos a agressividade dentro de nós, assim como temos o amor.

Resta saber como controlar ambos os sentimentos para se evitar que irrompam inexoravelmente de maneira catastrófica...

3, 5 e 7 maçons para abrir uma Loja

A iniciação na Maçonaria só pode ser realizada numa Loja e por uma Loja. Ora, uma loja é necessariamente um grupo de maçons. A iniciação não é transmitida de indivíduo para indivíduo, mas é entregue a um indivíduo por um grupo de indivíduos.

Algumas obediências maçónicas, entre as quais a Grande Loja Unida de Inglaterra, consignaram nas suas constituições um privilégio do Grão-Mestre, que consiste em "fazer" maçons "à vista" de acordo com o seu próprio julgamento. Para estas obediências, a Grã-Mestria, que nada mais é do que uma simples função administrativa, tem um carácter sagrado, que lhe valeria essas prerrogativas extraordinárias. Isto decorre de uma mentalidade profana e arcaica.

Os maçons que se projectam na imagem do "Pai" que pode fazer tudo, dificilmente podem avançar na Arte Real. Pelas suas próprias características, uma iniciação conferida nessas condições é inválida, devido ao simples motivo de não contribuir com nada para o destinatário.

Quando lhe é conferida nas melhores condições possíveis, dentro de uma Loja bem preparada, ainda é necessário que o Maçom trabalhe duramente para que a iniciação lhe forneça o "suplemento de alma" necessário para o progresso espiritual. Citamos esta prática apenas para denunciar um procedimento anti-tradicional, anti-iniciático, nada razoável e inepto.

Todos os rituais dizem que, três maçons formam uma Loja simples, que cinco a tornam justa e sete a tornam "perfeita".

Os três maçons da Loja simples são o Venerável e os dois Vigilantes. Estes três oficiais: o Venerável e os dois Vigilantes, são chamados as "luzes" da Loja. A Loja é justa quando a estes se juntam o Secretário e o Orador. Finalmente, a Loja é "perfeita" quando aos cinco se juntam o Experto e o Guarda Interno. Os lugares de Tesoureiro e Hospitaleiro podem ficar vagos porque essas funções participam na administração da Loja no intervalo entre as sessões, e não durante as próprias sessões.

Com "sete", a Loja é perfeita, pois o conjunto possui todas as faculdades necessárias para a sua operação e todos os elementos de uma estrutura coerente: O Venerável, os Vigilantes, o Guarda Interno, a pessoa encarregue do adequado desenvolvimento do ritual, o guardião da lei e a memória do grupo.

Existem, contudo, opiniões diferentes. Assim, Jules Boucher , e, "Simbolismo Maçónico" (La symbolique maçonnique) refere-se a rituais antigos para afirmar que cinco maçons, desde que sejam mestres, podem abrir uma loja e que uma loja justa e perfeita consiste adicionalmente de um companheiro e aprendiz e que não requer sete oficiais. Há também quem substitua o Experto pelo Mestre de Cerimónias por considerar que a sua função é essencial para a execução do ritual.

Esta regra de Três, Cinco e Sete poderá ter sido estabelecida em meados do século XVIII. De facto, é por volta de 1750 que os oficiais das Lojas são, com poucas qualificações, os mesmos que conhecemos hoje. É por volta de 1735 que o "Irmão que circula na Loja" se torna o Mestre de Cerimónias e que a função de Orador é criada para libertar o venerável dos discursos cerimoniais.

Os documentos mais antigos que se conhecem sobre a organização das Lojas (Edimburgh Register, por volta de 1630/1650) mencionam o Mestre, os dois Vigilantes e os "mordomos" (stewards). Em França, o grupo de oficiais não incluía, até 1735, mais do que três membros: o Venerável e os Vigilantes.

Traduzido e adaptado de publicação em Masoneria del Mundo (14 de Dezembro de 2017), por António Jorge, M∴ M∴, membro de:

R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 9 (GLLP / GLRP)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A ÁRDUA SENDA MÍSTICA


MALKUT - O REINO


Em meio as brumas tempestuosas, avistava-se o castelo, que imponentemente se erguia tal como uma fortaleza por entre as folhagens da floresta.

Era uma terra cheia de tradição, onde não raro estórias de fadas e duendes se transformavam em histórias, contadas por anciãos que tinham como missão transmitir as lendas para o povo e fazer com que fossem perpetuadas.

Nesse ambiente vivia um pequeno mancebo que aspirava à evolução, após ter percebido que não só o mundo material imperava e que alguma coisa maior existia, e que esta coisa estava a seu alcance, bastando procurá-la.

Cresceu cercado de tais estórias, acreditando que aonde se ia, se via uma manifestação da Consciência Cósmica, desde uma pedra até uma planta ou animal.

Contemplava e meditava por entre os bosques do reino de seu senhor, reino aquele que era material, aspirando a um reino muito mais superior, num plano muito mais elevado, que ele próprio desconhecia.

Foi em meio a uma dessas meditações que lhe veio a imagem de um cavaleiro, com seu manto púrpura com uma cruz vermelha, cavalgando incessantemente atrás de um objetivo qualquer. Viu ele também a face angustiada do cavaleiro, como se ele soubesse que nunca terminaria sua busca, cavalgando incessantemente por intermináveis planícies.

Eis que então o cavaleiro de sua meditação saca sua espada - uma espada com o punho reto, mas com uma uma particularidade: sua lâmina era ondulada, tal como se fosse uma serpente - e desfere um golpe numa pedra ainda não trabalhada, lhe desbastando uma aresta.

Subitamente, nosso jovem mancebo vislumbra também um anjo, que guardava solenemente uma árvore, e mais uma vez vê a espada ondulada - sim, o anjo estava guardando o Paraíso após a expulsão do homem primevo.

Sua meditação retornou ao cavaleiro, que da meia volta em seu corcel e dispara nova cavalgada em direção a pedra, lhe desferindo novo golpe...

Subitamente, um ruído o faz retornar a realidade: era um garoto que brincava nas proximidades da árvore centenária sob a qual estava meditando.

Será que sua vida se resumiria a meditações?

Pensou em se tornar um asceta, mas logo viu que como poderia ele aprender e se desenvolver sem o convívio com outros de sua espécie ? Ainda não era a hora disso.

Quando já estava um pouco mais crescido, foi tomado de forte febre, febre esta que o deixou acamado durante vários dias.

Em meio aos torpores da febre, sentia ele uma presença que não podia explicar, e volta e meia as visões do cavaleiro angustiado e do anjo guardião retornavam, tornando-o cada vez mais confuso.

Após recuperar-se da febre, sentiu que seu corpo já não era mais o mesmo: algumas sensações que antes eram apenas adormecidas, manifestavam-se com força e vigor.

Tentou conversar com seus familiares a respeito, mas não lhe deram ouvidos, tentou meditar a respeito, mas cada vez que meditava, mais fortes e torturantes as sensações ficavam.

Longos anos se passaram nesta angustiante espera de alguma coisa desconhecida, mas que cada vez mais tinha ele certeza de que iria acontecer.

IESOD - FUNDAMENTO

Numa manhã sentia-se totalmente estranho - ao levantar-se de sua cama, sua testa parecia que queria saltar-lhe da fronte, era um formigamento que o deixava cada vez mais atordoado e sem compreender o que eram tais sensações.

Dizia-se que na floresta em algum lugar, havia um ermitão entendido em assuntos considerados estranhos, o que o fez logo pensar em ir vê-lo, para tentar entender aqueles mistérios.

Mas logo um problema assolou sua cabeça: como poder-se-ia encontrar um ermitão que ninguém sabia onde encontrar ?

Apesar da dúvida que o perseguia, ainda mesmo quando ajuntou seus pertences e renunciou a vida mansa que tinha, resolveu sair a procura do ermitão.

Longos meses se passaram: chuva, sol, vento, e nada se revelava naquela floresta que parecia não ter fim, ocultando sua verdadeira face a cada poente.

Para comer ele caçava, para dormir, simplesmente encostava-se a uma árvore e dormia, mas a ideia de ter-se tornado asceta lhe pareceu estupidamente clara depois de algum tempo, e ele decidiu voltar.

Num desses dias, recostado a uma árvore, começou a sentir um puxão violento logo abaixo de seu umbigo - já era de noite e ele estava fixamente observando uma fogueira que tinha aceso a fim de se esquentar.

A fogueira se encontrava a sua direita, e dela emanava um agradável cheiro de natureza, que sublimava-se em contato com o fogo - Como o fogo é mágico - pensou ele, e subitamente aquele puxão aumentou violentamente, levando-o a um pavor imenso, pois ele vislumbrou a sua esquerda um vulto escuro, muito mais alto do que ele, que o fez ficar aterrorizado. Sentia sua nuca eriçar-se e seus membros tremerem...

Cada vez mais o vulto se aproximava, até que ele sentindo um violento formigamento na sua testa, desmaiou.

Enquanto desmaiado, sonhou com uma serpente mordendo sua própria cauda, formando um círculo perfeito.

Acordou numa caverna recheada de símbolos estranhos e com um cheiro de algo sendo preparado no fogo, que o fez lembrar de sua fogueira, lá na floresta, e do terror que o dominou.

Assustado tentou se levantar, mas seu corpo estava todo atordoado, fazendo com que deitasse novamente, num estupor que lhe tolhia o raciocínio.

Teve a estranha lembrança da serpente do sonho e do círculo, concluindo que o símbolo representava sua busca, que nunca teria fim, e que ele rodaria como numa roda da vida, sempiternamente.

Parecia este o fundamento de todo aquele lugar - um lugar que mostrava a ele que nossa busca interior não tinha fim, e de que devíamos nos esforçar para continuarmos procurando, mesmo sem saber o quê, nem porque.

Seus pensamentos foram interrompidos bruscamente por um velho todo encarquilhado, que rindo de sua situação, enfureceu-o bastante, mas já que não podia se mexer, resolveu engolir toda aquela raiva, e esperar.

O velho lhe perguntou se queria um pouco de água, e nosso jovem mancebo anuiu - sim precisava de água, embora o velho lhe inspirasse desconfiança e até um pouco de repulsa, ainda mais pelo andrajoso aspecto que se descortinava aos seus olhos.

Foi aí que se assustou: o velho perguntou-lhe se seu aspecto deplorável o assustava - o jovem assentiu, o que fez o velho explodir em gargalhadas

- Achas tu que estás em melhor estado que o meu ? Porque tens repulsa de mim, se é a mim que viestes procurar ? - perguntou o velho - Esperava encontrar um ancião em longas túnicas bordadas a ouro ? É meu aspecto externo que buscas ou os mistérios que conheço?

Essas palavras atingiram-no com um soco: era ele ! O ermitão que viera procurar ! E o velho captou todos seus sentimentos com relação a ele !!!

Passaram-se vários dias até que o velho lhe revelou a maior verdade que ele inconscientemente já sabia: devia ele partir em busca de uma elevação espiritual, devia ele iluminar-se, procurar aprimorar-se, partir em busca da LUZ, e que nenhum ser humano poderia fazer isto por ele.

Antes do jovem partir, o ermitão lhe ensinou uma coisa: ao sentir-se fatigado devia o jovem abraçar um menir, na região haviam muitos deles - os menires eram colocados em pontos de alta energia, mas nunca devia ele abraçar da cintura para baixo - poderia ser prejudicial.

Se nenhum menir estivesse por perto, deveria o jovem abraçar uma arvore, só que a força seria muito menor.

O jovem quis saber se o vulto que ele avistara na floresta era o ermitão - Não, não era. - disse o velho - Era um dos meus aliados, que chamo para me auxiliar colocando um espelho dentro de um rio, esperando que apareça um ser de outra dimensão oferecendo-lhe uma passagem, como se fosse uma janela pela qual ele sairia de seu mundo.

Em troca pela passagem e visita a este mundo, os aliados podem realizar certos serviços para mim.

Você pode fazer isso - disse veemente - mas lembre-se que o aliado é uma força muito poderosa, e para sair pelo espelho você precisará de muita força espiritual - tome cuidado para após terminada a tarefa, colocar o espelho na água e dispensá-lo agradecendo-o, pois eles consomem muita energia de você. Seja cuidadoso !!!

Com as palavras do ermitão na cabeça partiu em busca do desconhecido, sabendo que nunca mais veria aquele que se tornara seu amigo e mestre.

HOD - ESPLENDOR

Novamente aquela sensação de formigamento assolava-o, e meditando sobre as palavras do velho, sentiu que era chegada a hora de retornar ao reino, sair daquela floresta assustadora e interminável.

Dias e dias passou ele caminhando, até que um dia, fatigado, encostou-se numa árvore para descansar.

Dormitou e em meio ao estupor do sono, teve outra visão - aquele círculo com o qual tinha sonhado, poderia protegê-lo de forças estranhas se quando descansasse, traçasse ele um círculo no solo à sua volta, mentalizando que era um círculo energético protetor.

Naquela noite, antes de dormir, traçou ele um círculo para se proteger, e passou uma noite inteira sem percalços, nem perturbação de espécie alguma, não tendo também sonhado com nada que o intrigasse.

Ao preparar-se para partir, ouviu um estrondoroso ruido, tal qual um trovão que sacudia a terra e balançava as árvores, e ao longe avistou diversos cavaleiros, todos como em seu sonho, mas trazendo espadas retas.

Os cavaleiros foram se aproximando, aproximando, até que podia ver-lhes precisamente - era isso ! Vou tornar-me cavaleiro - pensou ele, agitando freneticamente os braços para ser notado.

Os cavaleiros chegaram - como eram imponentes, fortes, fazendo sua testa formigar e sua barriga estremecer com os puxões que sentia em seu plexo.

Que segredos guardariam tais cavaleiros ? O velho lhe dissera que estes cavaleiros detinham muito conhecimento, e que para ter-se acesso a eles deveria se comprometer a nunca revelá-los, nem escrevê-los, após passar por provas assustadoras.

Pediu-lhes que o levassem com eles, desejava tornar-se cavaleiro, submeter-se-ia a todas as provas e juraria nunca nada revelar.

Tal era o esplendor de suas armaduras e as emanações de sentimentos bons que nosso rapaz sentia, que mesmo que se lhe fosse pedido para morrer, morreria feliz, em meio a todo sentimento esplendoroso.

Os cavaleiros ciosos dos pedidos revestidos de honestidade do rapaz, e após terem sentido que ele era também um ser já mais evoluído, anuíram em submetê-lo às provas para tornar-se cavaleiro, apesar de sua linhagem não ser de tradição cavaleiresca.

Mas os cavaleiros sabiam o que estavam fazendo...

NETZAH - A VITÓRIA

Levaram-no a uma caverna escura e disseram-no para meditar na escolha que estaria fazendo - vida árdua, árdua senda de desenvolvimento espiritual, árduas batalhas materiais e espirituais.

Pediram-no também que escrevesse um juramento moral, que prometeria nada revelar a ninguém de seus segredos, sob a pena de morte agonizante.

O jovem concordou, e no escuro tateando, achou uma pena e uma folha de papel, onde lavrou seu juramento, apenas iluminado por uma pequena réstia de luz que penetrava por uma fenda das rochas.

O tempo passou e o jovem começou a se impacientar, mas sabiamente não reclamou - tinha boa compleição e aguentaria muito tempo sem beber nem comer se fosse preciso, mas a impotência o fez movimentar-se dentro daquela cripta, onde esbarrou com um esqueleto num canto - a luz da lua incidia sobre o crânio, onde podia-se ler a palavra VITRIOL - cujo significado ele desconhecia. Apavorado recuou.

Ao amanhecer, a cripta já não parecia tão assustadora, e os cavaleiros o vieram buscar para continuação das provas.

Vendaram-lhe e perguntaram-lhe se acreditava em Deus - o jovem disse que acreditava sim, mas não num Deus como um velho barbudo colérico e aterrorizante, mas sim numa inteligência cósmica que contribuía para a continuação da obra e da geometria do universo.

Diante da resposta, decidiram continuar: levaram-lhe para beira de um abismo e o mandaram pular - se confiasse em Deus, ele o ajudaria.

Pontas de espadas pressionavam-lhe as costas e ele bravamente pulou, com o coração a mil e a testa ardendo de formigação.

Não era um abismo, e sim um queda de pouca altura, mas demonstrou ele confiança nos seus companheiros e coragem, pois estava vendado e não podia saber o tamanho da queda.

Após várias outras provas, sagraram-no Cavaleiro da Sagrada Ordem da Cruz, com golpes de espada em seus ombros, enquanto ele ajoelhado elevava seu coração rumo à infinita sabedoria divina.

Foi a vitória sobre as paixões humanas e sobre as provas que o fizeram continuar nessa senda árdua e trabalhosa.

Então os cavaleiros disseram-lhe uma palavra que deveria ele usar para se identificar, e uma palavra de contrassenha para responder à esta palavra se a ouvisse.

Disseram-lhe que ali estava, não somente para defender seu Rei, mas também para partir em busca de conhecimento e espiritualidade, que lhe seriam dados quando encontrasse o Santo Graal, o cálice onde foi colhido o sangue de Jesus na cruz.

Um quadrado desenhado no chão sugeria-lhe a estabilidade daquela aliança, que deveria honrar com seus companheiros cavaleiros, prometendo novamente que nunca revelaria os segredos que lhe foram confiados.

Seu aprendizado apenas começara a ser organizado, pois haveria ainda muitas vezes que se reuniria com estes cavaleiros a fim de instruir-se, antes que partisse em busca do Santo Graal.

TIPHERET - BELEZA

Depois de muito tempo, sentiu ele que já era hora de partir em busca do Graal pelo reino de seu senhor, e quem sabe até fora dele...

Montado em seu corcel, despediu-se de seus companheiros cavaleiros em uma última reunião secreta e partiu.

Partiu levando a esperança de se tornar cada vez mais evoluído e cada vez mais próximo ao Supremo Geômetra do Universo, buscando incessantemente a sabedoria e praticando sem restrições a caridade e fraternidade.

Cavalgava ele dia e noite, parando de vez em quando para dormir em alguma estalagem que lhe desse pouso, visto que não carregava consigo nenhum metal com que pudesse pagar algo.

Pouco a pouco voltaram-lhe as visões de coisas que ele não compreendia, visões de símbolos que ele ainda não era capaz de compreender.

Certo dia, teve de dormir ao relento, tendo como companhia apenas seu cavalo e as estrelas, quando despertou em meio a um sonho estranho e angustiante - cada vez mais ele se tornava consciente que aquilo era uma tarefa árdua a conquistar, e sempre meditava a respeito de como poderia ele achar o Santo Graal.

E se algum outro cavaleiro o achasse antes dele ? E se ele ficasse vagando eternamente sem encontrar esse vaso sagrado ?

Tais questões o intrigavam, mas não o impediam de continuar adiante com seu projeto, sua meta de vida.

Cavalgando uma noite enquanto fitava as estrelas, uma estrela lhe chamou a atenção: era uma estrela diferente das demais, e parecia crescer lentamente de maneira quase imperceptível, mas crescendo sempre.

Continuou cavalgando - era uma noite sem lua, mas a luz das estrelas iluminava perfeitamente seu caminho, até que se deu conta que aquela estrela estava grande demais.

Parou seu cavalo, mas permanecendo montado, continuou a fitar a estrela cor de fogo, que agora crescia de maneira assustadora: será que apenas ele a estava vendo ? Seria algum delírio de sua mente cansada e estranha ?

A estrela tomou o tamanho de uma nuvem, e ele pode vê-la claramente: era um pentagrama em chamas, que parecia avisar-lhe de que algo inesperado ainda estava por vir.

Apesar do tamanho dela ser assustador, virou seu corcel em sua direção e começou a cavalgar decidido, pensando que talvez a estrela lhe indicasse o caminho do Graal ou de algo importante.

A estrela cintilou e seu fogo pareceu se animar, para depois começar lentamente a se esvair, até que nada sobrou no firmamento, além das estrelas ordinárias.

Ao longe começou ele a perceber formas de uma antiga construção, e continuou a cavalgar, cada vez mais excitado com a ideia de encontrar algo diferente. Além disso, aquelas sensações estranhas se apoderavam dele novamente, o que o fez pensar que estava no caminho certo, no caminho da luz.

Chegou a uma espécie de templo, que parecia abandonado, mas que outrora deveria ter sido imponente.

Viu no chão colunas abatidas, e uma porta que dava acesso a uma câmara inferior.

Resolveu deixar seu cavalo pastar um pouco e adentrar aquela porta que se encontrava aberta, munido de uma tocha que acabara de acender batendo uma pedra em outra e inflamando um bocado de capim.

Nada viu na antessala, mas um objeto no fundo de um poco lhe chamou a atenção - era uma pedra com uma argola de ferro: puxando-a, deparou-se com outra câmara e no fundo desta, outra pedra com argola.

Ao final de nove câmaras, já quase no limite do tempo limitado a capacidade de sua tocha, vislumbrou um altar com uma placa de ouro sobre a qual estavam gravadas quatro letras inefáveis hebraicas.

Pegou a placa e tentou dizer o que estava escrito, mas quando começou a soletrar, uma lufada de ar vinda de fora lhe apagou a tocha. Colocou o triângulo em seu pescoço com as letras viradas para dentro, e resolveu não mais tentar lê-las.

Caminhou em direção a luz externa e acendendo novamente a tocha, retornou para dentro, onde encontrou outra porta, desta vez fechada: resolveu bater, e eis que responderam-lhe do mesmo modo que batera.

Forçando levemente a porta, deparou-se com o templo mais lindo que já vira: era uma beleza tão estonteante que ele desejou nunca mais sair dali, mas ninguém estava ali para recebê-lo.

Logo sua atenção foi presa pela figura de um quadrado, que continha um círculo em seu interior, pintados no chão onde estava pisando, sugerindo-lhe que o infinito era também estável naquele lugar.

Mas e quem respondera às suas batidas ?

Procurou incessantemente, mas ninguém encontrou - uma sensação de medo começou a dominar-lhe as entranhas, fazendo-o correr para o exterior novamente.

Aquela beleza ficaria para sempre guardada em sua memória, mas sentiu que não era seu lugar ali...

GEBURAH - A FORÇA

Continuou sua jornada, em busca do Graal, perscrutando em todos os recantos possíveis daquele reino, mas começou a se sentir sem forcas para continuar aquela jornada.

Lembrou do que o velho lhe dissera sobre abraçar um menir, e começou a procurar um que estivesse em um sitio de grande poder energético, para reabastece-lo.

Após cavalgar ate quase a exaustão de seu cavalo, encontrou um menir que devia ser da altura de dois homens, cravado no meio de uma clareira aberta em meio a floresta.

Estranho era que parecia que há muito tempo ninguém ia ali, mas o mato não crescia muito grande perto do menir, bastava apenas para tampar o solo evitando que as chuvas levassem a terra.

Desmontou de seu cavalo e caminhando ate o menir o abraçou, apenas da cintura para cima, como lhe recomendara o velho ermitão.

Sentiu a forca da energia emanada daquele local, ao mesmo tempo que sentia suas forcas se reabastecerem.

Era uma força milenar, há séculos que aquela pedra devia estar ali naquela posição, irradiando como uma antena sua energia para uma rede fluídica que poucos deviam conhece-la.

Começou a sentir-se estranho, mas queria recarregar-se ao máximo, por isso continuou abraçado a pedra.

De repente, sua visão começou a toldar-se e uma dor de cabeça insuportável abateu sob seu crânio, fazendo-o desmaiar.

Espirais multicores e serpentes mordendo a própria cauda rodopiavam em seu delírio, seguidos de outras imagens mais estranhas ainda.

Em meio ao seu estupor, vislumbrou ele uma arca de madeira, revestida de ouro, suspensa por argolas que tinhas bastões passados por elas para carrega-la, e escutou uma voz dizendo-lhe que aquela arca guardou a tradição, guardou a Lei, que havia também sumido.

Seus sonhos cada vez mais o intrigavam, e ele atônito, acordou todo empapado em suor, e com uma dor de cabeça terrível.

Parece que ele havia provado uma sobrecarga da forca telúrica, e que não havia resistido...

CHESED - MISERICÓRDIA

Resolveu dormir ali mesmo, visto que estava ainda cansado, mas tomou uma distancia segura do menir, e dormiu.

Acordou com um hálito terrível sobre seu rosto em meio a madrugada nebulosa e úmida do local.

Quase morreu de susto ao ver uma encarquilhada sibila fitando-o nos olhos. A velha tinha um esboço de sorriso na sua boca sem dentes, e estava muito deliciada com a visão daquele cavaleiro ali deitado, inerme, encolhido como se fosse uma criança.

Aproximou-se dele e disse que graças a sua misericórdia, ele ainda estava vivo, pois ele havia tomado uma sobrecarga energética tão grande que havia morrido, mas ela, uma feiticeira experiente, o trouxe de volta a vida.

Aproveitou ela para dizer-lhe que para se renovar e preciso morrer, morrer para certos valores e hábitos e nascer para outros que renovariam sua alma, fazendo com que mais e mais ele se tornasse mais parecido com a Luz que buscava.

Mas alertou-o de que a senda da ascensão espiritual nunca acabaria, e que ele sempre estaria procurando algo.

Como presente para o cavaleiro, deu-lhe um punhal de prata com o cabo de ouro, sussurrou-lhe a enigmática frase, também gravada no punhal - "Ordo ab Chao", e o fez prometer que usaria aquele punhal para afastar as paixões humanas de seu caminho.

Após ter dito isto, voltou-se para a escuridão da mata e desapareceu como apareceu, sem nenhum ruido.

Como aquele caminho era cheio de peripécias e promessas !

BINAH - INTELIGÊNCIA

Aquele acontecimento fez-lhe pensar no que a velha havia lhe dito. Será que morrera mesmo, ou seria apenas uma alegoria ?

Será que ele devia pensar em parar de vagar atras do cálice sagrado, ou deveria busca-lo continuamente ?

Será que alguém já o encontrou ?

Sentia-se impotente, sua inteligência não bastava para descobrir os augustos mistérios que envolviam sua vida.

Pensou em parar para meditar em algum local, mas ainda era muito cedo para parar, então começou a pensar e remoer assuntos em sua cabeça, enquanto cavalgava.

Em certo ponto deparou-se com um roseiral, e imaginou-se sendo uma rosa que desabrochava para a vida, cada vez mais consciente do mundo em que vivia.

Sentiu que era imperativo deter-se ali por um momento, e assim o fez, desmontando de seu fiel e incansável cavalo...

Em meio ao roseiral achou um pequeno espaço em que podia deitar-se, o sol ainda estava fraco e não o incomodaria.

Deitou-se com os pés juntos, mas não resistiu à tentação de abrir os braços e ficar na mesma posição em que estava a cruz de seu manto.

Nessa posição assim ficou, ate que num êxtase, começou a sentir seu peito expandir-se e explodir em amor para todo o universo, sentiu seu peito abrindo-se, desabrochando-se como uma rosa, exalando seu perfume para todo o mundo.

Seu perfume era o Amor...

Seu êxtase durou um bom tempo, ate que sentiu o sol queimar- lhe a face, o que o fez lentamente retornar a este mundo.

Mas o sentimento que sentia, ia muito além de sua inteligência, não precisava dela para explica-lo, podia apenas senti-lo, aquele amor que ate doía no peito, mas um amor excessivamente lindo e universal.

CHOCHMAH - A SABEDORIA

Após acordar daquele êxtase, deparou-se com uma mulher formosíssima que o fitava incessantemente, emanando um sentimento de paixão que o arrebatou.

Ainda no chão, o cavaleiro tentou organizar seus pensamentos, mas eles estavam toldados pela visão da bela criatura: seu vestido tinha uma sutil transparência, que atravessado pelos raios do sol, deixava entrever a forma do corpo da bela jovem.

"Você pode estar extasiado pela minha beleza - disse ela - mas não pode compreender a sabedoria que carrego. Todas as ciências do mundo conheço, mas não posso ter uma vida normal, pois não sou deste orbe. - ajuntou a jovem, visivelmente perturbada.

A vida e uma Escada Misteriosa que devemos subir para aperfeiçoarmos, não titubeando nessa ascensão. Como eu já subi os sete degraus do Amor a Deus, que são a Justiça, a Pureza, a Doçura, a Força, o Trabalho, a Paciência e a Prudência, você também devera exercitar estes valores, para depois tornar-se sábio nas Ciências dos homens, no qual você exercitara o Amor ao Próximo, descendo pelos outros sete degraus da Escada Misteriosa da vida, estudando a Astronomia, a Música, a Geometria, a Aritmética, a Logica, a Retorica e a Gramatica, praticando-as para servir o próximo e a Deus.

Só após retificar-se, poderá tornar-se um iluminado como eu, pois já exercitei-me em todas as quatorze virtudes que te falei.

Mas mesmo após praticares o bem, você deve sempre continuar buscando a perfeição, para que se torne um Grande Cavaleiro da Ordem e da Bondade."

Após esta narração, começaram irromper asas enormes das costas da jovem, e após as asas estarem completamente formadas, ela disse ao cavaleiro: "Vincere aut Mori" e alçando voo, alcançou uma grande águia negra de duas cabeças.

Juntamente com a águia, a belíssima jovem voou, voou, ate desaparecer na altura do firmamento.

KETHER - A CORÔA

Atordoado, nosso cavaleiro agora compreendeu que sua busca nunca teria fim, e que nunca ele alcançaria seu objetivo nem acharia o Graal.

Descobriu que o Graal era apenas uma alegoria, que significava que ele, cavaleiro, deveria receber com a alma aberta todos os ensinamentos e todas as lições que a vida proporcionar-lhe-ia.

Só assim ele transformar-se-ia em um Iluminado, tal qual a mulher lhe falara.

Mas já vivera tanto, já ate morrera e retornara da morte que não sabia ele o que ainda ele deveria procurar...

Lembrou-se da serpente que mordia sua própria cauda, lembrou-se ele do circulo interminável, e lembrou-se de todos os episódios de sua jornada ate aquele encontro com a jovem.

A coroação do seu trabalho seria entender que seu este não terminara - e isto ele ja havia compreendido.

Foi então que ao entardecer, viu uma águia branca, linda que voava em sua direção.

Só quando a águia estava bem perto dele, e que ele viu, aterrorizado, que esta águia também tinha duas cabeças. Lembrou-se da jovem e de sua sabedoria.

A visão da jovem era vivida em sua mente, ate que foi quebrada por uma voz ensurdecedora que a águia emitia pousada num galho próximo.

A águia branca bicéfala repetia uma frase, mas o cavaleiro não conseguia compreende-la.

Falava em Deus, e também falava em direito.

Subitamente, pareceu compreender a frase "Deus Meumque Jus", e quando repetiu-a a águia levantou voo e desapareceu...

Compreendera o cavaleiro que agora sim, agora e que sua busca fora coroada...

Fora coroada o inicio de sua busca interior, todos sempre seriam aprendizes, todos estariam sempre aprendendo alguma coisa, ate que o Grande Geômetra do Universo os chamasse para com ele habitar o Oriente Eterno...

Posto isto, nosso cavaleiro levantou-se e reiniciou sua cavalgada, não mais procurando o Graal, mas sim procurando sentir-se como o Graal.

Crônica do Ocaso

Quando não há caminho a perseguir
Qualquer caminho leva a lugar nenhum
E o velho, sem destino, vai a nenhures
De encontro com sua morte
Que sabendo que não há mais esperança
Ceifa-o mais rapidamente
Pois ele nada mais procura, em nada mais crê

Sem nada a procurar
A letargia o leva à sepultura
Mesmo tendo produzido durante a vida
Ao deixar que o tempo oxidasse suas juntas
Selou o seu destino fatal

Enquanto esganava-se em busca de razões
Mantinha-se vivo
Hoje, poupa apenas sofridos suspiros
Pela hora que já vêm, para nada...

Criei Deus à minha imagem
Refleti nele os meus anseios
Culpei-o pelos meus fracassos
E hoje, sem nada para produzir
Sinto-me um pária
E Nele também deposito minhas mágoas

Temo a morte
Inexorável ela vem ao meu encontro
Na religião busco enganar-me
Apoio-me num porto seguro
Iludindo-me com um final que é apenas duro...

Na era bizantina a beleza era farta, opulenta
Às portas do século vinte e um,
As esguias são as belas
Mas a beleza se esvai com o tempo
Seja ela opulenta ou vazia

Mas procuramos apagar as marcas do tempo
Que calcam nosso corpo
Como Dorian Gray, transferimos para um retrato
Os açoites que a vida nos traz

Mas mudo no sótão
O retrato se decompõe
Até que, as marcas da alma
Nos tornam um com o retrato
E a máscara da estética e do belo caem
E com eles caímos juntos

Em toda sua vida o homem
Se pauta por uma moral de
Regras e regulamentos
Valores auto impostos
Divinos ou tácitos
Profanos ou legais

E quando os quebra
Produz um talho em sua moral
Indeléveis, estas marcas são disfarçadas
Mas o desespero de ocultá-las
Leva-o fatalmente à angústia
E no fim de sua vida ele remói
Tudo o que se auto proibira no passado...

Hoje, Amanhã, será um Ontem prá esquecer...

Adiaram o ENEM. Adiaram o Censo. Adiaram as eleições...

Ano de 2020. Praticamente um ano perdido. Será mesmo?

Penso, comigo e meus botões que esse ano ficará marcado, pelo menos durante alguns anos, no imaginário coletivo dos habitantes desse planeta: "O Ano da Pandemia" - parece coisa de ficção científica, aqueles filmes com a terra arrasada, tudo queimado, tudo parado.

Será que a humanidade vai melhorar? Vai saber que o que importa são as relações, as pessoas, as culturas e os saberes? Que importa mesmo é o abraço de quem se ama, dos filhos, pais e amigos... Que não importam as notas escolares, e sim o que se aprende, o que vira conhecimento - a pletora de  informação atirada às nossas crianças quase sempre some nas areias do esquecimento.

O noticiário não mais me importa, não quero mais saber de jornal, que pegou fogo sabe-se lá onde, e que guerras estão sendo travadas... Não quero mais saber se tal moeda está caindo ou subindo, ou se teve protestos contra imigração, contra família, contra governos ou contra Deus, a Pátria ou a Humanidade!

A pandemia de 1918 deixou o mundo em frangalhos, mas parece que nada foi apreendido. 

Cientistas sempre alertaram para o perigo de uma pandemia de Coronavirii diversos. E sempre aparece mais um (já tivemos vários: Gripe Espanhola, Suína, Aviária, Influenza, H1N1, H5N1, esse novo COVID e mais recentemente, o H1N2).

Mas o que se aprendeu com os anteriores? Seguimos poluindo, trancados em palácios de vidro que  demandam condicionamento de ar, que gastam energia, que concentram as respirações e humores de todos ali empacotados.

Queria ouvir que os seres humanos estão vivendo em harmonia, sem distinção de raças, de credos ou de cor... Que todos se irmanassem em uma grande Cadeia de União. Mas, decepcionado, mais uma vez torno a escutar que o mundo está confuso, briguento, doente.

Nosso planeta está nos sacudindo como pulgas com terremotos, vendavais, enchentes. 

E Gaia segue tentando sobreviver em meio a tanta parasita infestando-a. E com esse bichinho, esse ser  minúsculo, que nem se sabe se é vivo ou não, o planeta vai expurgando gases nocivos, poluição de águas e do ar, vai se regenerando - é como aquele adágio: visita o interior de terra, e, retificando-se,  encontrarás a pedra oculta. 

A pedra oculta é a nova humanidade, a nova sabedoria, a PAZ, com o planeta limpo e habitável.

E continuo, trancafiado por conta desse bichinho, matutando todas as madrugadas o que será que acontecerá na próxima vez que sairmos às ruas, tentando retornar à normalidade.

E vou sentindo falta dos abraços, de ver gente, de ver o mar, de passear e estar com meus amigos, com aqueles que realmente importam, que vibram suas almas junto às almas que vibram na mesma frequência que vibra a minha.

E a cada anoitecer suspiro de alívio, sabendo que sobrevivi e mais um dia me aguarda, para que eu  possa continuar acalentando a esperança de voltar a viver num mundo melhor.

No início desse ano, vendo notícias de guerras e conflitos, meu filho me perguntou quando seria que o ser humano se daria conta que todos somos uma só raça, uma só família e eu respondi que somente um inimigo comum de toda a humanidade nos juntaria à todos no enfrentamento de tal catástrofe. Tipo extraterrestres. Aliás, 2010 seria o ano que faríamos contato. Não fizemos...

Mas há esse inimigo comum e os terrestres estão demorando a se juntar num esforço para tentar conseguir a cura - logo vemos as nações que passaram na frente começando com o mesmo pensamento tacanho de sempre: como conseguiremos tirar vantagem disso, como conseguiremos tirar algum proveito dos que estão atrasados na corrida?

Às vezes escuto algumas pessoas matutando celeremente sobre como ficarem melhores depois dessa pandemia: mas algumas estão se acostumando com o novo normal, e isso não é bom. 


De fato, cada dia que passa eu tenho mais certeza somente de uma coisa: 

Hoje, certamente, Amanhã, será um Ontem prá esquecer...

Ver as velas * (Pochichá)

Quando viajava nestes trilhos
Do Araçuaí à Caravelas
Via praias tão belas
Que me convidavam a ficar

E vendo agitarem-se as areias
Lembrava-me das boas bateias
Das pedras que brotavam da terra
Urgia que tinha de voltar

Viajava no meio da mata
Botocudos me viam passar
Andava sempre carregada
De tesouros e amores sem par

Levava pedra, levava madeira
Levava amor e pesar
Mas hoje fiquei prisioneira
Nessa gaiola sem ar

Me deram o nome do barulho
Que fazia meu vapor cantar
Saía alegre na carreira
Tendo por destino o mar

Gente amiga e faceira
Peço com muita clemência
Usem a vossa inteligência
Não me deixem enferrujar

Comemorem meu aniversário
Com festa, balão e beleza
Façam-me funcionar, do contrário
Pochichá morrerá de tristeza!

* Poesia premiada com Menção Honrosa no V Prêmio Literário da Academia de Letras de Teófilo Otoni, ano 2020

Sonhos de uma noite de verão...




Essa noite sonhei
Com o som da palma de uma mão só
Com o gosto da luz do Sol
Com o som da grama crescendo

Essa noite escutei
A onda congelada no mar
A formiga alegre a cantar
O vento leve a sussurrar

E nessa noite percebi
Que a vida vale a pena
Que morrer me dá pena
Que ser, apesar de difícil,
Não me condena

E assim satisfeito,
Regozijei-me perante ao Senhor,
Relevei minha dor,
E agradeci a esse preito
Que é viver sem ser perfeito

Serapião *

Serapião mal se sustinha em cima de seu cavalo. 

O Sol a pino castigava a montaria, a deixando ofegante e trôpega. O alazão bufava a cada passo dado, e ainda claudicava, pois havia lascado a unha da mão direita, fazendo Serapião se balançar mais do que o normal. Água em profusão era uma quimera longínqua – um sonho que assolava a mente tanto de Serapião, quanto de seu animal. Suas reservas eram escassas. 

A cada passo dado, a sela rangia mais um lamento, brilhando ao Sol causticante, como se reclamasse de sua vida infeliz, quente e seca. Só o que se via à volta eram cactos: xiquexiques, palmas, nada que pudesse crescer ali era de diferente feitio. 

Serapião apertava os olhos como se dotado de uma miopia terrível – era insuportável a luminosidade do Sol, e ele não tinha como proteger os olhos – à cabeça levava aquele típico chapéu coco do Nordeste brasileiro, aquele, arredondado, feito de couro de bode, manchado pelo suor que cada vez mais o desidratava lentamente. 

Logo atrás, igualmente combalido, vinha seu cunhado Hermóge, chapéu desabado sobre o rosto, montado em uma pequena égua pequira, quase como uma figura caricata, ambos de cabeça baixa para alijar a vista dos raios brilhantes do astro-rei. Mas sua vestimenta, seu chapéu e seu gibão, eram todos mais novos do que o do compadre. Parecia que sua roupa nunca vira a lida verdadeira como a do compadre. Mas era porque ele tivera tempo de comprar uma roupa nova para a aventura que se descortinava diante de seus olhos. 

Serapião não, preferiu ficar com a roupa velha mesmo – ela machucava menos – pensou. A cada movimento, a cada ranger de suas selas, se escutava um cincerro tocando sua lúgubre marcha fúnebre – era como se sinos dobrassem pelos quase mortos-vivos viajantes da caatinga, sonhadores aquosos, maltrapilhos, indigentes. Era a cabra, atada ao rabo da éguinha, que resoluta em não mais desperdiçar suas energias balindo, dobrava o cincerro a cada vara que avançava, como um voga marcando o passo da sofrida caminhada. 

Com um esgar de desprezo, Serapião tentava manter sua atenção focada na trilha batida que seguia indefinidamente em direção ao Sol, o deixando de frente para a luminosidade que o ofuscava até o mais afastado recôndito de sua alma. Era como se a parte detrás de seu escalpo estivesse iluminada por dentro, lhe fritando os miolos. 

Murmurava palavras incompreensíveis, talvez uma cantilena para passar o tempo, talvez uma oração. O fato é que Hermóge apenas ouvia seu compadre zumbindo como se fosse um feiticeiro proferindo preces, talvez chamando chuva, talvez amaldiçoando o calor. Com uma linha tênue de suor encimando seu lábio superior, Serapião continuava a cantilena, mas Hermóge não tinha coragem de o interpelar. 

Sabia da personalidade explosiva de seu compadre e amigo de priscas eras. Cresceram juntos naquela distante gleba, seca e poeirenta, que os obrigava a fazerem brinquedos com o próprio revés, de montarem castelos disformes de poeira na areia terrosa da caatinga, de se sentirem reis e príncipes, cavaleiros ungidos de ordens seculares que o pai contava que existiam do outro lado do mar. Mas o que era o mar? Nunca lhes passava pela cabeça como seria ver aquela quantidade de água toda reunida em um só lugar, e ainda por cima salgada, o que lhes impossibilitaria saciar as suas sempiternas sedes. 

De que servia o mar então, meu Deus – pensavam os meninos. Sonhavam em sair dali, mas para aonde? 

O mundo deles se resumia a poeira e seca – não conheciam nada além disso. Então como queriam abandonar uma coisa que somente era tudo o que sabiam da vida? Estudo, não tiveram. Letras, não conheciam. Mas não eram analfabetos não. 

Segundo o pai de Serapião, homem que sabe contar não era analfabeto não. Ambos amigos sabiam todos os números. Somavam e subtraíam. Multiplicavam com alguma dificuldade. Mas a divisão era para eles um mistério, uma magia. 

Principalmente se envolvesse alguma coisa que não restasse inteira. Isso lhes rendia celeumas intermináveis, que às vezes se prolongavam até altas horas da noite, à beira do fogão de lenha externo, instalado sob uma coberta alijada da casa. Um caramanchão seco de galhos retorcidos e espinhosos. 

Não porque fosse ali necessária uma fonte de calor, mas porque era a única fonte de luz disponível além da luz das estrelas e da Lua, e única fonte de distração nas longas noites quentes e suarentas da caatinga. De volta ao caminho, o chão estalava de quente, com trincas que desenhavam no barro ressequido arabescos que, imaginavam os ignotos viajantes, seriam algum tipo de escrita. 

Nada mais tinha para descrever a cena, o calor, o suor, o sal que entrava pelos olhos dos dois, ardendo, nada mais continha o vazio quente e solitário do que uma palavra que trazia em si mesma a essência daquele lugar: 

Cáustico.


* Conto premiado no VI Prêmio Literário da Academia de Letras de Teófilo Otoni, ano 2021, 3o lugar. É o primeiro capítulo do livro homônimo em produção por mim.

Viajando com a caravana *

O anno era 1847, ou 46, não me lembro bem, estávamos todos ávidos em desbravar o sertão para que as Minas Gerais fossem uma capitania de força no nosso glorioso Brasil. Eu conhecera de véspera Teófilo, dos Otoni, em uma reunião informal em uma praça fria da comarca de nossa cidade, o Serro frio, de onde avistávamos a capela de Nossa Senhora da Conceição, quando ouvi Teófilo dizer que Sua Majestade, Dom Pedro, estava interessado em terras que Victor Renault vislumbrara subindo os rios da Região de Todos os Santos e Mucuri. 

Eram histórias antigas, mas que nos avivavam as mentes e curiosidades. Teófilo falava em organizar uma excursão, uma não, duas excursões para subirem os rios em direção ao sertão que citara Renault – queria Teófilo fundar uma cidade que fosse um centro de progresso no Norte da Capitanias das Minas Gerais. 

Uma excursão partiria com a chefia de seu primo, Dom Manuel Esteves Otoni, e a outra seria cargo dele mesmo e seu cunhado Joaquim Maia, saindo com rumo à Santa Clara, em direção ao oeste bravio. As duas expedições encontrar-se-iam em Santa Clara – era o início da Companhia Mucuri, que organizaria o transporte direção sertão adentro, pelo rio e pela terra. Na seleção dos cabras que subiriam o caminho, levava em conta se tivéssemos facões e espingardas : eu os tinha e em bom estado. 

Selamos os cavalos com boas provisões de fumo, arroz e toucinhos defumados, em conjunto com barriletes de pólvora, já que ficamos sabendo que no recôndito da mata se encontravam "botocudos", índios ferozes e astutos. A organização das expedições tomou muito tempo. Eu mal continha meu entusiasmo, mas já se iam dois anos e nada… Finalmente, em 1852, de madrugada, a neblina fria cortando nossos rostos, partimos em direção à mata cerrada do Mucuri. 

Viagem sofrida, lenta, muito desbaste de mato, cipós se entrelaçavam com cobras que a toda hora nos davam bote, mas o que mais dava medo era a presença dos índios, que sutilmente apareciam durante os pousos ou assoviavam na mata de maneira muito peculiar. Teófilo dera a ordem de nunca atirar nos nativos – no primeiro ataque, atiramos para cima e a algazarra os dispersou. Mas uma certa manhã, com alguns homens ainda sonolentos, os botocudos fizeram uma incursão violenta pelo nosso acampamento e ao mesmo tempo sumiram pelas brenhas da mata, deixando dois homens mortalmente feridos, quatro feridos leves, mas todas nossas mulas e cavalos jaziam no chão, em poças de sangue coagulado e inertes. 

O que faríamos, pensávamos, mas Teófilo nos exortou a continuar – já estávamos de tal maneira embrenhados na mata que voltar seria igualmente penoso. Recolhemos as nossas tralhas da maneira que deu, cada um carregando o que conseguia, e continuamos na nossa marcha inexorável rumo ao oeste. 

O medo era patente, o rio era nosso companheiro e guia, e continuávamos, numa caminhada sempiterna. Mas os recursos foram se esgotando, assim como os homens que não conseguiam dormir, nem comer direito. 

Quando findaram os mantimentos, alguns desertores se voltaram para o leste e iniciaram a caminhada rumo à jusante do rio, insatisfeitos com a viagem e desesperançosos com as promessas de Teófilo de que chegariam a algum pouso decente. Nossos mantimentos acabaram, e a solução foi comer frutinhas doces das árvores, e palmitos sem gosto que porventura encontravam. 

A terra era por demais inóspita para fornecer alguma caça: nem desperdiçávamos mais munição como medo do retorno dos "botocudos". De tardinha os mosquitos não nos davam trégua: minhas pernas estavam inchadas, meus olhos fundos, coçava incessantemente, mas eu permanecia no firme propósito de acompanhar Teófilo, aquele homem que eu vira discursar com entusiasmo no Serro. As terras eram cheias de morros e abismos, uma vegetação retorcida nada oferecia, esturros de onça assustavam os viajantes, mas Teófilo continuou inabalável em direção ao Oeste, mesmo com o moral de seus tropeiros, fartos de carregar toda a tralha nas costas, indo cada vez mais para baixo. 

E eis que um dia, cerca de 28 léguas da Cachoeira de Santa Clara, os viajantes divisam uma linda planície com uma terra boa e fértil, que causa alegria nas tropas que já endurecidas pela viagem, já não ríamos. E assistimos a Teófilo subir em uma pedra e gritar para nós, todos rotos e aflitos: 

- Chegamos, aqui fundaremos nossa cidade dos amigos, nossa Filadélfia! 

E assim fez Teófilo, nosso chefe da expedição: inaugurou sua cidade dia 7 de setembro de 1853, para que a pátria aniversariante cedesse um lugar à mesa para nossa cidade, através do assentamento da primeira rua daqui – a rua Direita, plana e reta, de norte a sul. 

Com muito gosto, fiz parte da expedição, e apesar dos mosquitos, botocudos, diarréias e febres, tenho orgulho de ter sido chefiado rumo ao futuro pelo nosso tão amado Dr. Teófilo Otoni!

* Conto premiado com Menção Honrosa no VI Prêmio Literário da Academia de Letras de Teófilo Otoni, ano 2021

Que foi feito do Boi? *




Chicão tinha acabado de comer no prato de barro havia levado para o roçado - tinha arroz, feijão, um pouco de quirera. A carne era o coió. O suficiente para aguentar até a noite, quando voltaria ao arraial. Ainda tinha o gosto de sangue na boca que o coió arrancara de sua língua, mas era melhor do que nada de carne.

O Sol tinha dado uma trégua e a sombra que ele desfrutava embaixo da árvore da mata que ladeava o roçado era generosa. Até friinha, talvez.

Sua mulher estava buchada. - Seria quem que nasceria, pensava ele.

A vida no arraial era arretada, mas era a vida que Deus mandou. Chico se comprazia dessa vida, não pensava muito na sucessão dos dias, apenas vivia. E sua dona estava esperando um rebento seu. Essa idéia o dizimava, não sabia se seria mais um filho homem para lhe ajudar, ou uma filha para lhe estorvar. Gente de roça era assim, pensou. Precisa de menino.

Na verdade, o arraial era um quilombo, não daqueles que fugidos que fundavam meio que escondidos: era um quilombo onde seus antepassados tinham chegado ali fugindo da seca, do estertor do calor que trincava o chão e silvava entre as pedras.

Resolveu voltar para sua tapera. Seu serviço ali acabara, e ele estava mais a fim de ir deitar-se, de esticar o esqueleto para ganhar de volta os bocadinhos que o tempo lhe roubara na altura. Pensou, enquanto caminhava na sua cama no alto da árvore - malditas sejam essas onças que nos assolam de madrugada, ruminando entre os dentes gastos de cortar capim para fazer cesto.

Caminhando por entre a mata, já distante do roçado, começou a escutar alguns gritos, lamúrias, não conseguia discernir de quem - era uma algaravia de uma maneira tão desordenada, que não dava para escutar qual era a estória. Teria que chegar.

Apertou o passo e a picada logo o levou para o centro do quilombo, em uma clareira na mata. As casinhas todas apontando para o meio do terreirão davam uma sensação de segurança e comunidade. Ali era seu lar. Logo notou a confusão no meio do terreiro. Uma mulherada gritava, batendo nas cabeças descobertas, em volta da carcaça de um boi, que de tempo que estava ali, já juntava moscas pretas e verdes brilhante em sua volta.

- Ai, o boi morreu, ai ai morreu o boi! - gritavam todas as mulheres do quilombo, enquanto batiam os pés no chão e levantavam uma poeira alaranjada seca, grossa, irritante.

Chicão chegou perto e só viu as moscas que andavam pelas órbitas vazias do boi, já meio cheias de larvas brancas que se retorciam nervosas com o calor.

- Chama o nosso feiticeiro, Nhô Lau, pra mode de ver se revive o boi!! - vociferou Chicão para as crianças que se amontoavam ali para desfrutar do espetáculo.

Nho Lau já vinha se arrastando há algum tempo, alertado pela balbúrdia. Só que ele usava uma bengala de galho de árvore, muito lustrosa, e era muito velho. Demorava. Mas vinha.

Depois de minutos de choradeira, poeira e gritaria, Nho Lau põe a mão no boi e grita algumas mandingas e rezas, benzeduras e imprecações, mas nada da carcaça se mexer. Assim, Nho Lau, sem falar nada, se vira, e volta para sua mansarda, arrastando suas pernas empurradas pela bengala.

- Chama o pajé! - grita o velho, na sua voz rouca, já meio distante do boi.

Os meninos trouxeram o pajé que morava no mato, ali do lado do quilombo. Como ele era índio, mas sozinho, preferia ficar ao largo do que junto com os moradores dali. Sentia-se de fora. Ele veio rápido. Não tinha bengala. Mas trazia um chocalho na mão esquerda.

Acercou-se do boi, cantou, chacoalhou o chocalho, vociferou rezas e nada. Retirou-se também humilhado para a mata, desolado, já que sabia do valor daquele boi para o quilombo. Aquele bicho era o trator, o carro, o caminhão dali. Tudo pesado era encargo dele. Quem iria carregar todos aqueles tarecos pesados, as compras, quem iria puxar o arado. O boi era muito importante.

A algaravia continuava. As mulheres gritavam, os meninos caçoavam, a comoção era geral.

Eis que, de troça, surge um menino no meio da multidão, entra no círculo e sopra o rabo do boi, o que faz com que a carcaça fique de pé e saia chifrando e escoiceando todos pela frente.

E o boi correu para o nordeste, pulando e chifrando. E virou causo do quilombo: Dizem que está correndo até hoje, mas sem os olhos!

E todo ano ele volta!!!!

* Conto premiado no V Concurso Literário da Academia de Letras de Teófilo Otoni, 3o lugar, ano 2020

Translate it!