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terça-feira, 14 de junho de 2011

Católico e maçom: qual é o problema?

por Dom Redovino Rizzardo

Apesar de, na adolescência, alguém ter descortinado em mim indícios de
vocação mais militar do que eclesiástica, nunca me senti com armas em
punho. Não sei se por virtude, formação ou temperamento, não é de meu
feitio inventar inimigos para ter o prazer de destruí-los. Percebo-me
mais levado à comunhão do que ao combate. Nestes oito anos de
episcopado, penso que em nenhuma homilia eu tenha perdido tempo
condenando a quem pensa diferente, seja ele espírita ou evangélico,
ateu ou maçom. Até mesmo porque tenho por mim que é melhor acender uma
luz do que amaldiçoar as trevas.

Mas, ao mesmo tempo, tenho consciência que não posso ficar em cima do
muro, sem tomar uma posição definida, para não perder os amigos e não
ser criticado pelos "inimigos". Se assim fizesse, estaria sendo infiel
à minha missão, como adverte o profeta Ezequiel: «Filho de Adão, eu te
coloquei como sentinela na casa de Israel. Quando ouvires uma palavra
de minha boca, tu falarás em meu nome. Se eu digo ao perverso que ele
morrerá e tu nada disseres para que deixe sua má conduta e conserve a
vida, ele perecerá por sua culpa, mas a ti pedirei contas de seu
sangue» (3,17-18).
Fiz essa introdução porque, nestes anos de episcopado, foram inúmeros
os católicos que me procuraram para saber se, em sã consciência,
poderiam fazer parte da Maçonaria. É a eles que desejo responder neste
artigo, sem pretensão de falar em nome de outras denominações cristãs
que, talvez, tenham opinião diferente.
Primeiramente, quero lembrar que só se sente realizado quem tem e
assume uma identidade clara e definida. Ser ecumênico não significa
renunciar a convicções pessoais. Nem ter que ser necessariamente
sincretista, nivelando todas as culturas e religiões. O pluralismo só
é virtude onde existe maturidade e comunhão.
Dito isso, o que devo responder aos católicos que me perguntam se
podem ingressar na Maçonaria? À primeira vista, a resposta pareceria
afirmativa, pois assim como o Rotary e o Lions, a Maçonaria não se
define como religião, mas como «uma instituição fraterna e
filantrópica, uma filosofia humanista, preocupada antes de tudo pelo
homem e consagrada à busca da verdade», apesar de considerá-la
inacessível. Mesmo contando com ritos e símbolos que a assemelham a
uma religião – tanto que se fala de templos maçônicos –, ela se diz
aberta a crentes e não crentes. Talvez seja por isso que, enquanto
algumas Lojas manifestam uma verdadeira ojeriza por Deus, outras até
parecem exigir de seus membros uma fé religiosa.
Apesar de contar com um grande número de amigos que pertencem
simultaneamente à Igreja Católica e à Maçonaria, preciso reconhecer
que, entre elas, há princípios que se opõem mutuamente. Tanto é
verdade que, se nos primeiros anos de filiação os membros católicos
continuam praticando a fé, à medida que sobem na graduação maçônica, a
imensa maioria se afasta decididamente da Igreja e dos sacramentos,
acabando no indiferentismo religioso.
Os motivos são múltiplos e diversificados. Um deles é o laicismo
propugnado pela Maçonaria. Não se trata da laicidade positiva
defendida pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. O laicismo imposto
pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa reduz a religião à esfera
privada, vetando-lhe qualquer interferência na vida pública. Nele, os
valores são ditados pela democracia e impostos pela maioria. Não tendo
origem divina, nenhuma moral é definitiva, mas evolui pelo consenso da
sociedade.
Outro ponto de divergência é o racionalismo. A Maçonaria não aceita
verdades reveladas. Rejeita os dogmas impostos pela fé. Tudo tem que
ser explicado pela razão. Fica complicado, portanto, para um católico
maçom continuar acreditando na encarnação e na ressurreição de Jesus –
só para dar dois exemplos.
A própria imagem de Deus apregoada pelos maçons é muito diferente da
que foi revelada por Jesus. Para a Maçonaria, o Grande Arquiteto do
Universo é um Deus abstrato, distante e inacessível, uma espécie de
"mestre relojoeiro". Deixa as coisas acontecerem e não interfere nos
assuntos dos homens.
Como o leitor católico percebeu, não é simples falar de sintonia e
convivência em matéria de religião. Apesar de se declarar tolerante
com todas as religiões, a Maçonaria manifesta certa dificuldade em
aceitar a influência da Igreja Católica na sociedade. Contudo – sem
entrar no mérito de outros aspectos, como a entreajuda que vigora
entre os maçons (e que desaparece quando alguém deixa a entidade), e a
seleção rigorosa de seus membros, escolhidos a dedo entre as classes
mais favorecidas –, para um diálogo frutuoso e uma convivência
pacífica, o primeiro passo a fazer, de ambas as partes, é a
sinceridade de intentos, o desarmamento dos ânimos e a superação dos
preconceitos criados ao longo dos séculos.

Dom Redovino Rizzardo

* Bispo de Dourados

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