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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Avaliação do livro Serapião por um amigo

Recebi essa crítica do livro Serapião de um leitor amigo. Gostei tanto que pedi para publicar aqui. Ele deixou... Segue..

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Fala, Jurza! Cé tá joia? O prefácio da Nayla, conquanto simples, impactou-me profundamente. Até onde li, coadunou-se perfeitamente com os personagens.

Nesse diapasão, até aqui, o que primeiro me chama a atenção não são apenas os acontecimentos, mas a mansidão das palavras. Serapião e Hermóge parecem consubstanciar a esperança em forma de simplicidade. O vocabulário de ambos é chão batido — sem arabescos, sem volutas, sem os enfeites que costumam emprestar falsa nobreza às ideias pobres. Entre coloquialidade e neologismos, dizem palavras que consubstanciam toda uma vida sob a égide de valores incomensuráveis (embora hoje, fatidicamente prese-se mais pelo preço do que pelo valor).

Há, no modo como transitam pela paisagem — que é simples como eles, feita de poeira, silêncio e horizontes francos (até onde eu li, ainda não terminei e o livro é profícuo aos nos permitir imaginar certos lugares)— uma correspondência moral. O lugar que atravessam não ostenta grandezas arquitetônicas nem promessas de glória; é feito de estradas modestas e lugares que parecem pedir licença ao vento. Contudo, dessa singeleza brota um contraste admirável: a força mental inabalável dos dois. 

Até onde li, Serapião e Hermóge são desses espíritos que, privados do léxico abundante, dispensam-no. Sua linguagem é econômica como a de quem aprendeu que as palavras não devem ultrapassar os fatos. E, ainda assim — ou por isso mesmo — revelam uma beleza de alma que os vocábulos mais raros não lograriam traduzir. São personagens que provam, sem alarde, que a elevação do espírito não depende da elevação da dicção.

E então surge o narrador.

Ah, o narrador! Este, sim, passeia pelo idioma com a desenvoltura de quem conhece seus salões e suas cozinhas. Move-se transitando por neologismos e linguagem erudita, imagens sugestivas e observações sutis, como quem conduz o leitor pela mão, ora apontando a ironia escondida no gesto mais trivial, ora iluminando com palavras ricas o que os personagens vivem em silêncio. O contraste é deliberado e fecundo: de um lado, o simplório; de outro, o elaborado. De um lado, a frase curta e direta; de outro, a reflexão que se dobra sobre si mesma.

Essa alternância não empobrece — enriquece. Ao leitor, oferece um exercício raro: transitar entre dois mundos linguísticos que se completam. O vocabulário mais vasto do narrador não humilha o dos personagens; antes o ampara, como moldura que realça o quadro. E o falar modesto de Serapião e Hermóge funciona como pedra de toque, lembrando-nos que a verdade pode ser dita sem aparato.

Há, pois, um ganho cognitivo evidente nesse trânsito. O espírito do leitor expande-se ao acompanhar o narrador em suas sutilezas e, logo depois, recolhe-se à limpidez das falas simples. Aprende-se que a riqueza da língua não está apenas na abundância de termos, mas na justeza de seu emprego. Aprende-se, sobretudo, que a grandeza moral pode residir na economia verbal.

Se a literatura é, como já se insinuou por aí, um espelho — ainda que às vezes de moldura dourada —, Serapião prefere o vidro límpido ao cristal lapidado. E, ao fazê-lo, demonstra que a verdadeira sofisticação não exclui a simplicidade; antes a reconhece como sua origem.

Serapião e Hermóge caminham por estradas modestas; o narrador, por veredas verbais mais floridas. O leitor, entre ambos. Daí, sai da leitura mais atento às palavras — e, quem sabe, mais atento a si mesmo.

Data vênia pelo vernáculo: que puta livro!

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