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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Rio subterrâneo na Amazônia

Cientistas anunciam rio subterrâneo de 6 mil km embaixo do Rio Amazonas

Batizado de Hamza em homenagem a um dos pesquisadores que participaram
do estudo, rio corre a 4 mil metros de profundidade em meio a
sedimentos; descoberta foi possível graças a dados de 241 poços
perfurados pela Petrobrás nas décadas de 1970 e 1980

25 de agosto de 2011 | 0h 00
Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Pesquisadores do Observatório Nacional (ON) encontraram evidências de
um rio subterrâneo de 6 mil quilômetros de extensão que corre embaixo
do Rio Amazonas a uma profundidade de 4 mil metros. Os dois cursos
d"água têm o mesmo sentido de fluxo - de oeste para leste -, mas se
comportam de forma diferente.

A descoberta foi possível graças aos dados de temperatura de 241 poços
profundos perfurados pela Petrobrás nas décadas de 1970 e 1980, na
região amazônica. A estatal procurava petróleo.

Fluidos que se movimentam por meios porosos - como a água que corre
por dentro dos sedimentos sob a Bacia Amazônica - costumam produzir
sutis variações de temperatura.

Com a informação térmica fornecida pela Petrobrás, os cientistas
Valiya Hamza, da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, e
a professora Elizabeth Tavares Pimentel, da Universidade Federal do
Amazonas, identificaram a movimentação de águas subterrâneas em
profundidades de até 4 mil metros.

O dados do doutorado de Elizabeth, sob orientação de Hamza, foram
apresentados na semana passada no 12.º Congresso Internacional da
Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio.

Em homenagem ao orientador, um pesquisador indiano que vive no Brasil
desde 1974, os cientistas batizaram o fluxo subterrâneo de Rio Hamza.

Características. A vazão média do Rio Amazonas é estimada em 133 mil
metros cúbicos de água por segundo (m3/s). O fluxo subterrâneo contém
apenas 2% desse volume com uma vazão de 3 mil m3/s - maior que a do
Rio São Francisco, que corta Minas e o Nordeste e beneficia 13 milhões
de pessoas, de 2,7 mil m3/s. Para se ter uma ideia da força do Hamza,
quando a calha do Rio Tietê, em São Paulo, está cheia, a vazão alcança
pouco mais de 1 mil m3/s.

As diferenças entre o Amazonas e o Hamza também são significativas
quando se compara a largura e a velocidade do curso d"água dos dois
rios. Enquanto as margens do Amazonas distam de 1 a 100 quilômetros, a
largura do rio subterrâneo varia de 200 a 400 quilômetros. Por outro
lado, a s águas do Amazonas correm de 0,1 a 2 metros por segundo,
dependendo do local. Embaixo da terra, a velocidade é muito menor: de
10 a 100 metros por ano (mais informações nesta página).

Há uma explicação simples para a lentidão subterrânea. Na superfície,
a água movimenta-se sobre a calha do rio, como um líquido que escorre
sobre a superfície. Nas profundezas, não há um túnel por onde a água
possa correr. Ela vence pouco a pouco a resistência de sedimentos que
atuam como uma gigantesca esponja: o líquido caminha pelos poros da
rocha rumo ao mar.

Temperatura. Hamza e Elizabeth apontam a existência do que os
pesquisadores chamam de "dois grandes sistemas de descargas de fluidos
na Amazônia": o Rio Amazonas, com seus 6.100 km de extensão, e o fluxo
oculto das águas subterrâneas.

Segundo os dados apresentados por Elizabeth, o fluxo subterrâneo é
praticamente vertical - de cima para baixo - nos primeiros 2 mil
metros. Depois, nas camadas mais profundas, muda de direção,
tornando-se quase horizontal. Depois de atravessar as bacias do
Solimões, Amazonas e Marajó, o rio alcança o fundo do mar, perto da
foz do Amazonas.

Hamza argumenta que as descargas do fluxo subterrâneo de água doce
poderiam explicar os bolsões de baixa salinidade comuns no litoral da
região.

O geólogo Olivar Lima, da Universidade Federal da Bahia, assistiu à
apresentação do trabalho e, na ocasião, mostrou aos autores mais
dados, obtidos em outros poços perfurados pela Petrobrás na foz do
Amazonas, que confirmam as conclusões do estudo. Porém, acha um
exagero classificar a descoberta como um rio.

"Os resultados são muito bons", afirma Lima. "Só não acho correto
propor a existência de um rio subterrâneo." Ele argumenta que os dados
permitem afirmar a existência de um imenso fluxo de água através das
formações permeáveis da Bacia Amazônica. Mas a velocidade seria muito
baixa para justificar a categoria de rio.

Contudo, se por um lado a velocidade não se compara à de um rio
convencional, o volume de água assume ordens de grandeza que tornariam
compreensível tal comparação, reconhece o pesquisador.

A descoberta, por enquanto, não mudará a vida das populações que
habitam a Bacia Amazônica. Como o rio está a uma profundidade muito
grande e há muita água doce na superfície, não seria economicamente
razoável perfurar a terra para acessar o curso d"água. O estudo pode
ajudar, no entanto, a prospecção de petróleo.

PARA LEMBRAR

Há dois anos, cientistas italianos descobriram um rio subterrâneo que
corre embaixo de Roma, mais extenso que o Tibre - o terceiro maior da
Itália, com 392 quilômetros.

Assim como o brasileiro, o rio subterrâneo italiano foi encontrado
graças a dados de perfuração de poços.

No Brasil, outra reserva de água subterrânea é o Aquífero Guarani, com
45 milhões de litros. A maior parte fica no Brasil, mas ele também se
estende no Paraguai, Uruguai e Argentina.

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