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terça-feira, 16 de agosto de 2011

CARBONÁRIA

CARBONÁRIA

por XICO TROLHA


Sobre a Carbonária, o único escritor, no Brasil, que se dedicou
realmente em trazer algum esclarecimento, foi o Irmão Adelino de
Figueiredo Lima, um dos primeiros contestadores de algumas das mazelas
que debilitaram a nossa Ordem e que ainda debilitam. Todavia, este
trabalho não comporta esse tipo de assunto por isso é que vamos
transcrever apenas uma pequena introdução que ele fez da Carbonária:

        "Nenhuma Sociedade Secreta fascinou tanto as multidões
sequiosas de sua liberdade, ou da independência política conquistada à
custa de lágrimas e sangue, quanto a Maçonaria Florestal, mais
conhecida como "Carbonária", por ter sido fundada pelos carvoeiros da
Hannover, como associação de defesa e de ação contra os opressores e
assaltantes de sua classe. Constituída no último Quartel do Séc. XV,
ela só veio a entrar na História, como organização de caráter
político, após a Grande Revolução Francesa.

        Na Itália, ela adquiriu fama de violenta e sanguinária, e
introduzida na França por ordem de Napoleão, não tardou em
converter-se na mais poderosa força oposicionista ao expansionismo do
grande corso, lutando contra ele na França, na Áustria, na Espanha e
em Portugal.

        O nome de "Maçonaria Florestal", veio-lhe depois que irrompeu,
na Itália e na França. "Maçonaria", porque os Maçons a propagavam e a
protegiam, "Florestal", porque as Iniciações dos seus Membros,
lembravam as dos antigos Carvoeiros de Hannover, realizadas nas
florestas mais densas, a cobertos das vistas estranhas.

        Os Carbonários, antes de serem investidos nos Segredos da
Ordem, passavam por duras provas e prestavam os mais terríveis
juramentos, como este, que eram assinados com próprio sangue:

"Juro perante esta assembléia de homens livres, que cumprirei as
ordens que receber, sem as discutir e sem hesitar, oferecendo o meu
sangue em holocausto, à libertação da Pátria, à destruição do inimigo
e à felicidade do Povo. Se faltar a este juramento, ou trair os
desígnios da Poderosa Maçonaria Florestal, que a língua me seja
arrancada e o meu corpo submetido ao fogo lento por não ter sabido
honrar a Pátria que foi meu berço."

        Só depois deste juramento é que o Candidato recebia as
insígnias de "Bom Primo", — (as insígnias de Bom Primo consistiam de
um balandrau preto e Capuz, tendo bordado, em branco, no peito, um
punhal (o punhal de São Constantino), com o cabo no formato cruciforme
entrelaçado a uma cruz cristã.) O punhal de São Constantino não
constava somente de um desenho bordado no Peito do Balandrau Preto,
era também uma arma branca, que todos os Carbonários usavam — também
em suas execuções — como símbolo da Ordem a qual pertenciam.

        O Balandrau Preto, dos líderes, ao invés do  Punhal e da Cruz
entrelaçados — possuía bordado no peito, em dourado, um sol radiante.

        O brado de guerra dos Carbonários consistia em, cada um,
levantar o seu punhal bem alto. Normalmente as reuniões dos tribunais
carbonários eram realizadas, a exemplo dos carvoeiros de Hannover, no
passado, em plena floresta, bem distante dos olhares curiosos e
indevidos.

        Seus julgamentos eram implacáveis e seus réus, se condenados,
eram executados com a máxima eficiência. O Carbonário era, as vezes,
juiz e carrasco ao mesmo tempo. Seus afiliados (jamais podiam trair a
Ordem. Os que traíram, sempre foram exemplarmente executados) se
tornavam Carbonário ou executor das ordens de "Alta Venda". Em cada
país a Organização da "Maçonaria Florestal" obedecia ao esquema
italiano:

        "Alta Venda", corpo deliberativo superior, composto de um
Delegado da cada "Barraca", composta por sua vez por um Delegado de
cada "Cabana"; e as "Cabanas" eram formadas por um Delegado de cada
"Choça". Acima da "Alta Venda" estava porém, a "Jovem Itália",
composta por um triunvirato que nas lutas pela Unificação e pela queda
do Poder Temporal dos Papas, era constituído por Cavour, Mazzini e
Garibaldi.

        A Carbonária Italiana, a princípio, foi protegida pelo
Carbonário Lucien Charles Napoleão Murat — General de Napoleão
Bonaparte — e Princípe de Monte Corvo, filho do Marechal Murat,
nascido em Milão, em 1803. Ele abandonou a Itália em 1815, com a
derrocada de Napoleão em Waterloo, em 18.07.1815, tendo sido capturado
na Espanha. Após sua libertação, seguiu para os Estados Unidos, em
1825. Ali se casou, tendo retornado a Paris em 1848.

        Mais tarde, Murat foi eleito Grão Mestre do Grande Oriente,
conseguindo um progresso muito grande no erguimento da Obediência, com
a fundação de muitas novas Lojas.

        Um dos elementos que se deve destacar na Carbonária Italiana —
não pelos seus atos patrióticos, mas sim pela sua traição à Carbonária
— é o Conde Peregrino Rossi. Rossi teve duas atitudes distintas: na
mocidade, foi um dos mais ativistas e propagandistas dos ideais da
Carbonária, merecendo o respeito de todos os Bons Primos. Todavia, de
um momento para outro, bandeou-se para as hostes inimigas.

        Rossi aliou-se ao Papa Gregório XVI com a finalidade de
conseguir do Papa, condenações às ações dos Jesuítas. Nesse ínterim,
morre Gregório XVI e sobe ao Trono de São Pedro o Papa Pio IX, ao qual
Rossi se afiliou de corpo e alma. Rossi, que fora até Roma para
combater o jesuitismo, volta um fiel defensor dos Irmãos de Inácio de
Loyola.

        É proscrito da Carbonária em 1820 e se torna um novo Saulo,
convertendo-se aos ideais do Papa.

        — Era o novo Judas —, gritavam em todas as "Barracas", de
punhal em riste, os Bons Primos, seus antigos companheiros.

        Conhecedor que era dos métodos de seus antigos companheiros,
Rossi teve muita facilidade de nominar seus líderes e encher as
prisões da Cidade Eterna, dando um tremendo golpe no movimento
revolucionário.

        Rossi cada vez mais se dedicava a uma ação repressiva, sem
pensar que — desde a mais humilde "Choça" à mais pujante "Barraca", e
com Giuseppe Mazzini tendo o controle de todas as "Altas Vendas" — os
punhais de São Constantino eram levantados e descreviam no ar o ângulo
reto das decisões fatais. A sentença estava lavrada, terrível e
implacável.

        Havia sido marcada uma reunião para o dia 15 de novembro, a 1
hora da tarde, com o Ministro Conde Peregrino Rossi.

        Dissera Rossi no dia anterior: "— Se me deixarem falar, se me
derem tempo para pronunciar o meu discurso, não só a Itália estará
salva, como ficará definitivamente morta a demagogia da Península".  A
demagogia da península era o movimento Carbonário.

        "La causa del Papa es la causa del Dio". E o Conde Peregrino
Rossi desceu as escadarias e entrou na carruagem que o levaria ao
Parlamento.

        Chegando à praça, a carruagem atravessou lentamente a multidão
e entrou pela porta do Palácio e foi parar em frente ao vestíbulo,
onde Peregrino Rossi foi saudado por assobios e gritos enraivecidos:

        — Abaixo o traidor !

        — Morte ao vendilhão da Pátria !

        Só então Rossi se apercebeu que nem toda a consciência
nacional estava encarcerada na Civiltá Véchia.

        Esboçou um sorriso contrafeito para a multidão e quando se
dispunha a continuar a marcha, recebeu um golpe na carótida,
especialidade dos Bons Primos, que o fez tombar agonizante.

        No bolso interno da sobrecasaca, ao ser recolhido o cadáver,
foi encontrada a sentença de morte:

"Juraste lutar pela unificação da Itália e traíste o juramento !
Lembrando: 'Juro que jamais abandonarei as armas ou desertarei do
Movimento Patriótico, enquanto a Itália não for livre e entregue a um
governo do Povo, para o Povo. Se eu faltar a esse juramento, prestado
de minha livre e espontânea vontade, que o pescoço me seja cortado e o
meu nome desonrado e apregoado como o mais vil traidor à Pátria e aos
Bons Primos da Carbonária Italiana'.  Com coisas sérias não se brinca
!"

        Como vimos, a Carbonária estava a léguas de distância da
Maçonaria, mas apesar disso, sempre foi confundida com a Maçonaria,
até por Maçons bisonhos que acreditam que no passado a Maçonaria
executava Irmãos e profanos que não rezassem por sua cartilha. De vez
em quando, ouvimos um Irmão dizer que a Maçonaria precisa voltar a ser
o que era no passado, e executar os maus elementos da sociedade.

        A Maçonaria em tempo algum executou os maus elementos da
sociedade. Quem, às vezes fez isso, foi a Carbonária, a Santa Vehme, a
Maçonaria não. A Maçonaria sempre foi pacífica, respeitadora da lei e
ordem. Só usando sua estrutura fechada para conspirar contra os maus
regimes políticos e algumas instituições nocivas, mas sempre ordeira e
pacificamente. Seus membros, sim, às vezes, independentemente de suas
Lojas, se filiavam a movimentos ou grupos vingadores.

— texto extraído do livro "Itambé, Berço Heróico da Maçonaria no
Brasil", Ed. "A Trolha", 1996.

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