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quarta-feira, 23 de março de 2011

HUMANUM GENUS

Segue a Bula papal da condenação da Maçonaria pela Igreja Católica.
Detalhe: ela ainda é válida e foi ratificada pelo Ratzinger, o atual
papa Bento XVI...

ENCÍCLICA
HUMANUM GENUS
DO PAPA LEÃO XIII
SOBRE A MAÇONARIA


Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, e
Bispos do Mundo Católico em Graça e Comunhão com a Sé Apostólica.

1. O Gênero Humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e
Doador dos dons celestes, "pela inveja do demônio," separou-se em duas
partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela
verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à
virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus na terra, especificamente,
a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em seus
corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem
necessariamente servir a Deus e Seu único Filho com toda a sua mente e
com um desejo completo. A outra é o reino de Satanás, em cuja
possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal
de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a
obedecer à lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em
desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus.

2. Este reino dividido Sto. Agostinho penetrantemente discerniu e
descreveu ao modo de duas cidades, contrárias em suas leis porque
lutando por objetivos contrários; e com sutil brevidade ele expressou
a causa eficiente de cada uma nessas palavras: "Dois amores formaram
duas cidades: o amor de si mesmo, atingindo até o desprezo de Deus,
uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo até o desprezo de si
mesmo, uma cidade celestial."[1] Em cada período do tempo uma tem
estado em conflito com a outra, com uma variedade e multiplicidade de
armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto.
Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem
estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida, liderados
ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida
chamada os Maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus
propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o
próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja
publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de
despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse
possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso
Salvador. Lamentando estes males, Nós somos constrangidos pela
caridade que urge Nosso coração a clamar freqüentemente a Deus: "Ó
Deus, eis que Teus inimigos se agitam; e os que Te odeiam levantaram
as suas cabeças. Eles tramam um plano contra Teu povo, e conspiram
contra Teus santos. Eles disseram: 'vinde, destruamo-nos, de modo que
eles não sejam uma nação'."[2]

3. Em uma crise tão urgente, quando tão feroz e tão forte assalto é
feito sobre o nome Cristão, é Nosso ofício apontar o perigo, marcar
quem são os adversários, e no máximo de Nosso poder fazer uma barreira
contra seus planos e procedimentos, para que não pereçam aqueles cuja
salvação está confiada a Nós, e para que o reino de Jesus Cristo
confiado a Nosso encargo possa não só permanecer de pé e inteiro, mas
possa ser alargado por um crescimento cada vez maior através do mundo.

4. Os Pontífices Romanos nossos predecessores, em sua incessante
vigilância pela segurança do povo Cristão, foram rápidos em detectar a
presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele saltou para
a luz ao invés de esconder-se como uma tenebrosa conspiração; e, além
disso, eles aproveitaram e tomaram providências, pois a eles isso
competia, e não permitiram a si mesmos serem tomados pelos
estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.

5. A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano
de 1738[3], e sua constituição foi confirmada e renovada por Bento
XIV[4]. Pio VII seguiu o mesmo caminho[5]; e Leão XII, por sua
constituição apostólica, Quo Graviora[6], juntou os atos e decretos
dos Pontífices anteriores sobre o assunto, e os ratificou e confirmou
para sempre. No mesmo sentido pronunciou-se Pio VIII[7], Gregório
XVI[8], e, muitas vezes, Pio IX[9].

6. Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram
claramente descobertos por manifestos sinais de suas ações, pela
investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, e de seus
ritos e comentários, com a freqüente adição do testemunho pessoal
daqueles que estiveram no segredo, esta sé apostólica denunciou a
seita dos Maçons, e publicamente declarou sua constituição, como
contrária à lei e ao direito, perniciosa tanto à Cristandade como ao
Estado; e proibiu qualquer um de entrar na sociedade, sob as penas que
a Igreja costuma infligir sobre as pessoas excepcionalmente culpadas.
Os sectários, indignados por isto, pensando em eludir ou diminuir a
força destes decretos, parcialmente por desprezo, e parcialmente por
calúnia, acusaram os soberanos Pontífices que os passaram ou de
exceder os limites da moderação em seus decretos ou de decretar o que
não era justo. Este foi o modo pelo qual eles esforçaram-se para
eludir a autoridade e o peso das constituições apostólicas de Clemente
XII e Bento XIV, e também de Pio VII e Pio IX[10]. Entretanto, na
própria sociedade, encontraram-se homens que relutantemente
concordaram que os Pontífices Romanos tinham agido dentro de seu
direito, de acordo com a doutrina e disciplina Católicas. Os
Pontífices receberam a mesma concordância, em termos fortes, de muitos
príncipes e chefes de governo, que tomaram como um dever ou delatar a
sociedade maçônica à sé apostólica, ou por seu próprio acordo por leis
específicas declará-la perniciosa, como, por exemplo, na Holanda,
Áustria, Suíça, Espanha, Bavária, Savóia, e outras partes da Itália.

7. Mas, o que é da maior importância, o curso dos eventos demonstrou a
prudência dos Nossos predecessores. Pois a sua providente e paternal
solicitude não conseguiu sempre e em todo lugar o resultado desejado;
e isto, ou por causa do fingimento e astúcia de alguns que eram
agentes ativos na maldade, ou então da irrefletida leviandade do resto
que deveria, em seu próprio interesse, ter dado ao assunto sua
diligente atenção. Em conseqüência, a seita dos Maçons cresceu com uma
velocidade inconcebível no curso de um século e meio, até que se
tornou capaz, através de fraude ou audácia, de obter tal acesso em
cada nível do Estado de modo a parecer quase a sua força governante.
Este veloz e formidável avanço trouxe sobre a Igreja, sobre o poder
dos príncipes, sobre o bem estar público, precisamente aquele grave
dano que Nossos predecessores tinham previsto muito antes. Tal
condição foi atingida que de agora de diante haverá grave razão para
temer, não realmente pela Igreja - porque sua fundação é firme demais
para ser derrubada pelos esforços dos homens - mas por aqueles Estados
em que prevalece o poder, ou da seita da qual estamos falando ou de
outras seitas não diferentes que curvam-se a ela como discípulas e
subordinadas.

8. Por estas razões Nós, tão logo chegamos ao timão da Igreja,
claramente vimos e sentimos ser Nosso dever usar Nossa autoridade em
sua máxima extensão contra um mal tão vasto. Nós já por muitas vezes,
conforme as ocasiões surgiram, atacamos alguns pontos principais dos
ensinamentos que demonstraram de uma maneira especial a perversa
influência das opiniões Maçônicas. Assim, em nossa carta encíclica,
Quod Apostolici Muneris, Nós Nos esforçamos por refutar as monstruosas
doutrinas dos socialistas e comunistas; depois, em outra começando com
"Arcanum", Nós penosamente defendemos e explicamos a verdadeira e
genuína idéia da vida doméstica, da qual o matrimônio é o ponto de
partida e a origem; e novamente, naquela que começa com
"Diuturnum"[11], Nós descrevemos a idéia de governo político conforme
os princípios da sabedoria Cristã, que é maravilhosa em harmonia, por
um lado, com a ordem natural das coisas, e, por outro lado, com o
bem-estar tanto dos príncipes soberanos quanto das nações. É agora
Nossa intenção, seguindo o exemplo de Nossos predecessores, tratar
diretamente a própria sociedade maçônica, todo o seu ensinamento, seus
objetivos, e a sua maneira de pensar e agir, de modo a trazer mais e
mais à luz seu poder para o mal, e fazer o que Nós pudermos para deter
o contágio desta peste fatal.

9. Há vários corpos organizados os quais, embora diferindo em nome, em
cerimonial, em forma e origem, são contudo tão unidos por comunhão de
propósito e pela similaridade de suas principais opiniões, de modo a
formar de fato uma só coisa com a seita dos Maçons, a qual é um tipo
de centro ao qual todos eles se dirigem, e do qual todos eles
retornam. Agora, estes não mais mostram um desejo de permanecer
escondidos; pois eles realizam seus encontros à luz do dia e à vista
do povo, e publicam seus próprios jornais; e contudo, quando
completamente compreendidos, descobre-se que eles ainda retêm a
natureza e os hábitos de sociedades secretas. Há muitas coisas como
mistérios que é regra fixa esconder com extremo cuidado, não somente
de estranhos, mas de muitos e muitos membros, também; tais como seus
desígnios secretos e últimos, os nomes de seus maiores líderes, e
certos segredos e encontros privados, assim como suas decisões, e os
caminhos e meios de executá-las. Este é, sem dúvida, o objetivo das
múltiplas diferenças entre os membros quanto a direito, cargo e
privilégio, das distinções recebidas de ordens e graus, e da severa
disciplina que é mantida.

Os candidatos são geralmente ordenados a prometer - e mais, com um
especial juramento, a jurar - que eles não irão nunca, a nenhuma
pessoa, em qualquer tempo ou de qualquer modo, dar a conhecer os
membros, as senhas, ou os assuntos discutidos. Assim, com uma
aparência externa fraudulenta, e com um estilo de fingimento que é
sempre o mesmo, os Maçons, como os Maniqueístas de antigamente,
esforçam-se, tanto quanto possível, para encobrir a si mesmos, e para
não admitir testemunhas exceto seus próprios membros. Como uma maneira
conveniente de disfarce, eles assumem o caráter de homens de letras e
acadêmicos associados com o objetivo de aprender. Eles falam de seu
zelo por um maior refinamento cultural, e de seu amor pelos pobres; e
eles declaram que seu único desejo é a melhoria da condição das
massas, e o compartilhamento com o maior número possível de pessoas de
todos os benefícios da vida civil. Mesmo que estes propósitos fossem
visados verdadeiramente, eles não são de modo algum o todo de seu
objetivo. Ainda mais, para ser alistado, é necessário que os
candidatos prometam e assumam ser daí em diante estritamente
obedientes aos seus líderes e mestres com a mais completa submissão e
fidelidade, e estar de prontidão para cumprir suas ordens à mais leve
expressão de seu desejo; ou, se desobedientes, submeter-se aos mais
penosos castigos e à própria morte. De fato, se algum é julgado ter
traído as obras da seita ou ter resistido à ordens dadas, a punição é
infligida neles não infreqüentemente, e com tanta audácia e destreza
que o assassino muito freqüentemente escapa à detecção e punição de
seu crime.

10. Mas fingir e desejar permanecer escondido; atar homens como
escravos com as mais fortes correntes, e sem dar qualquer razão
suficiente; usar homens escravizados aos desejos de outro para
qualquer ato arbitrário; armar as mãos direitas de homens para o
massacre após assegurar a impunidade pelo crime - tudo isso é uma
enormidade diante qual a natureza recua. Por este motivo, a razão e a
própria verdade tornam claro que a sociedade da qual nós estamos
falando está em antagonismo com a justiça e a retidão natural. E isto
se torna ainda mais claro, uma vez que outros argumentos, também, e
muito evidentes, provam que ela é essencialmente oposta à virtude
natural. Pois, não importando quão grande possa ser a inteligência do
homem em disfarçar e a sua experiência em mentir, é impossível evitar
os efeitos de qualquer causa de mostrarem, de algum modo, a natureza
intrínseca da causa da qual eles vêm. "Uma boa árvore não pode
produzir mau fruto, nem uma árvore ruim produzir bom fruto."[12]
Agora, a seita maçônica produz frutos que são perniciosos e do mais
amargo sabor. Pois, daquilo que Nós acima mostramos da maneira mais
clara, aquele que é o seu propósito último força-a a se tornar visível
- especificamente, a completa derrubada de toda a ordem religiosa e
política do mundo que o ensinamento Cristão produziu, e a substituição
por um novo estado de coisas de acordo com as suas idéias, das quais
as fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo.

11. O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com
respeito à seita dos Maçons tomada genericamente, e tanto quanto ela
compreende as associações aparentadas a ela e confederadas com ela,
mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e
não poucos que, embora não livres da culpa de terem se enleado em tais
associações, ainda assim não são eles mesmos parceiros em seus atos
criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se
esforçando por alcançar. Do mesmo modo, algumas das sociedades
afiliadas, talvez, de modo algum aprovem as conclusões extremas que
eles iriam, se consistentes, abraçar como conseqüências necessárias de
seus princípios comuns, se a sua própria maldade não os enchesse de
horror. Alguns deles, novamente, são levados pelas circunstâncias dos
tempos e lugares ou a visar coisas menores do que os outros
normalmente tentam ou do que eles mesmos desejariam tentar. Eles não
devem, entretanto, por esta razão, ser considerados como estranhos à
federação maçônica; porque a federação maçônica deve ser julgada não
tanto pelas coisas que ela tem feito, ou concluído, quanto pela soma
de suas opiniões pronunciadas.

12. Agora, a doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam
suficientemente conhecida em seu próprio nome, é que a natureza humana
e a razão humana deveria em todas as coisas ser senhora e guia. Eles
ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por
opiniões errôneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha
sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião
ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem
qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E
desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica
estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente
recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a
autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é
contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente
dirigido.

13. Nos assuntos a respeito de religião que se veja como a seita dos
Maçons age, especialmente aonde ela é mais livre para agir sem
barreiras, e então que qualquer um julgue se realmente ela não deseja
executar a política dos naturalistas. Por um longo e perseverante
labor, eles esforçam-se para alcançar este resultado -
especificamente, que o ofício de ensinar e a autoridade da Igreja
tornem-se sem valor no Estado civil; e por esta mesma razão eles
declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem ser
completamente desunidos. Por este meio eles rejeitam das leis e da
nação a saudável influência da religião Católica; e eles
conseqüentemente imaginam que os Estados devem ser constituídos sem
qualquer consideração pelas leis e preceitos da Igreja.

14. Nem eles pensam ser suficiente desconsiderar a Igreja - a melhor
das guias - mas eles também a ferem por sua hostilidade. Realmente,
para eles está dentro da lei atacar com impunidade as próprias
fundações da religião Católica, em palavra, em escritos e em
ensinamentos; e até os direitos da Igreja não são poupados, e os
ofícios com os quais ela é divinamente investida não estão seguros. A
mínima liberdade possível para administrar os assuntos é deixada à
Igreja; e isto é feito por leis aparentemente não muito hostis, mas na
realidade armadas e ajustadas para dificultar a liberdade de ação.
Ainda mais, Nós vemos leis excepcionais e opressivas impostas sobre o
clero, a fim de que eles possam ser continuamente diminuídos em número
e meios necessários. Nós também vemos os remanescentes das possessões
da Igreja restringidos pelas mais estritas condições, a sujeitados ao
poder e ao desejo arbitrário dos administradores do Estado, e as
ordens religiosas reviradas e espalhadas.

15. Mas contra a sé apostólica e o Pontífice Romano a contenda destes
inimigos tem sido por um longo tempo dirigida. O Pontífice foi
primeiro, por razões sem substância, atirado para fora da proteção de
sua liberdade e de seu direito, o principado civil; logo, ele foi
injustamente forçado em uma condição que era insuportável por causa
das dificuldades levantadas de todos os lados; e agora o tempo chegou
em que os partisans (guerrilheiros) da seita abertamente declaram, o
que em segredo entre eles mesmos eles têm por um longo tempo
planejado, que o poder sagrado dos Pontífices deve ser abolido, e que
o próprio papado, fundado por direito divino, deve ser totalmente
destruído. Se outras provas fossem desejadas, este fato seria
suficientemente revelado pelo testemunho de homens informados, dos
quais alguns em outros tempos, e outros recentemente, declararam ser
verdadeiro a respeito dos Maçons que eles desejam especialmente atacar
violentamente a igreja com irreconciliável hostilidade, e que eles
nunca descansarão até que eles tenham destruído o que quer que os
supremos Pontífices tenham estabelecido como religião.

16. Se aqueles que são admitidos como membros não são ordenados a
abjurar por quaisquer palavras as doutrinas Católicas, esta omissão,
muito longe de ser adversa aos desígnios dos Maçons é mais útil para
os seus propósitos. Primeiro, deste modo eles facilmente enganam os
ingênuos e os incautos, e podem induzir um número muito maior a se
tornarem membros. Novamente, como todos que se oferecem são recebidos
qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam
o grande erro desta época - que uma consideração por religião deveria
ser tida como assunto indiferente, e que todas as religiões são
semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína
de todas as formas de religião, e especialmente da religião Católica,
que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande injustiça,
ser considerada como meramente igual às outras religiões.

17. Mas os naturalistas vão muito mais longe; pois, tendo, nas mais
altas coisas, entrado em um curso completamente errôneo, eles são
levados impetuosamente a extremos, ou por causa da fraqueza da
natureza humana, ou porque Deus inflige sobre eles a justa punição do
seu orgulho. Assim acontece que eles não mais consideram como certas e
permanentes aquelas coisas que são totalmente entendidas pela luz
natural da razão, tais como certamente são - a existência de Deus, a
natureza imaterial da alma humana, e sua imortalidade. A seita dos
Maçons, por uma similar trilha de erro, é exposta a estes mesmos
perigos; pois, embora de um modo geral eles possam professar a
existência de Deus, eles mesmos são testemunhas que eles não mantém
todos esta verdade com total concordância da mente e com uma firme
convicção. Nem eles escondem que esta questão sobre Deus é a maior
fonte e causa de discórdias entre eles; de fato, é certo que uma
discussão considerável sobre este mesmo assunto existiu entre eles
muito recentemente. Mas, realmente, a seita permite grande liberdade
aos seus membros juramentados por voto, de modo que para cada lado é
dado o direito de defender a sua própria opinião, ou de que há um
Deus, ou de que não há nenhum; e aqueles que obstinadamente argumentam
que não há nenhum Deus são tão facilmente iniciados como aqueles que
argumentam que Deus existe, embora, como os panteístas, eles tenham
falsas noções acerca dEle: tudo que não é nada mais do que retirar a
realidade, retendo algumas absurdas representações da natureza divina.

18. Quando esta maior e fundamental verdade foi derrubada ou
enfraquecida, segue que aquelas verdades, também, que são conhecidas
pelo ensinamento da natureza devem começar a cair - especificamente,
que todas as coisas foram feitas pelo livre desejo de Deus o Criador;
que o mundo é governado pela Providência; que as almas não morrem; que
a esta vida dos homens sobre a terra sucederá outra em uma vida
eterna.

19. Quando estas verdades foram eliminadas, as quais são os princípios
da natureza e importantes para o conhecimento e para o uso prático, é
fácil de ver o que irá ser da moralidade pública e privada. Nós não
dizemos nada daquelas virtudes mais celestiais, as quais ninguém pode
exercer ou mesmo adquirir sem um especial dom e graça de Deus; das
quais necessariamente nenhum traço pode ser encontrado naqueles que
rejeitam como desconhecida a redenção da humanidade, a graça de Deus,
os sacramentos, e a felicidade a ser obtida no céu. Nós falamos agora
dos deveres que têm a sua origem na retidão natural. Que Deus é o
Criador do mundo e seu providente Governador; que a lei eterna exige
que a ordem natural seja mantida, e proíbe que ela seja perturbada;
que o fim último do homem é um destino muito acima das coisas humanas
e além desta parada sobre a terra: estas são as fontes e estes são os
princípios de toda justiça e moralidade.

Se eles forem removidos, como os naturalistas e Maçons desejam,
imediatamente não haverá nenhum conhecimento quanto ao que constitui
justiça e injustiça, ou sobre qual princípio a moralidade é fundada.
E, em verdade, o ensinamento de moralidade que exclusivamente encontra
o favor da seita dos Maçons, e em que eles argumentam que os jovens
deveriam ser instruídos, é o que eles chamam "civil", e
"independente", e "livre", especificamente, aquele que não contém
qualquer crença religiosa. Mas, quão insuficiente tal ensinamento é,
quanto deixa a desejar em firmeza, e quão facilmente movido por cada
impulso da paixão, é suficientemente provado por seus tristes frutos,
que já começaram a aparecer. Pois, aonde quer que, removendo a
educação Cristã, este ensinamento começou a reinar mais completamente,
aí a bondade e integridade da moral começou rapidamente a perecer,
monstruosas e vergonhosas opiniões têm crescido, e a audácia dos atos
malignos tem se elevado a um alto grau. Tudo isso é comumente
lamentado e deplorado; e não poucos daqueles que de modo algum desejam
fazê-lo são compelidos pela abundância de provas a dar não
infreqüentemente o mesmo testemunho.

20. Ainda mais, a natureza humana foi manchada pelo pecado original, e
é portanto mais disposta ao vício do que à virtude. Pois uma vida
virtuosa é absolutamente necessária para restringir os movimentos
desordenados da alma, e para fazer as paixões obedientes à razão.
Neste conflito as coisas humanas devem freqüentemente ser desprezadas,
e os maiores trabalhos e durezas devem ser executados, de modo que a
razão possa sempre manter o seu domínio. Mas os naturalistas e Maçons,
não tendo fé naquelas coisas que nós aprendemos pela revelação de
Deus, negam que nossos primeiros pais tenham pecado, e
conseqüentemente pensam que o livre desejo não é de modo algum
enfraquecido e inclinado ao mal[13]. Pelo contrário, exagerando
bastante o poder e a excelência da natureza, e colocando somente ali o
princípio e regra da justiça, eles não podem nem mesmo imaginar que
haja qualquer necessidade de uma constante luta e uma perfeita firmeza
para dominar a violência e governo de nossas paixões.

Por isso nós vemos que homens são publicamente tentados pelos muitos
encantamentos do prazer; que há jornais e panfletos sem moderação nem
vergonha; que peças de teatro são notáveis pela licenciosidade; que
desenhos para obras de arte são de uma maneira desavergonhada buscados
nas leis de um assim chamado realismo; que os planos de uma vida fácil
e delicada são cuidadosamente elaborados; que todas as seduções do
prazer são diligentemente buscadas pelas quais a virtude possa ser
ninada até adormecer. Depravadamente, também, mas ao mesmo tempo de um
modo bastante consistente, fazem aqueles atos que eliminam a
expectativa das alegrias do céu, e trazem para baixo toda a felicidade
para o nível da mortalidade, e, de fato, a afundam na terra. Do que
Nós dissemos o seguinte fato, estarrecedor não tanto por si mesmo
quanto em sua aberta expressão, pode servir como confirmação. Pois,
uma vez que geralmente ninguém está acostumado a obedecer homens
hábeis e inteligentes tão submissamente como aqueles cuja alma está
enfraquecida e quebrada pelo domínio das paixões, tem havido na seita
dos Maçons alguns que têm simplesmente determinado e proposto que,
engenhosamente e de propósito estabelecido, a multidão deveria ser
saciada com uma licença sem limite para o vício, pois, quando isso
tivesse sido feito, ela iria facilmente cair sob o seu poder e
autoridade para quaisquer atos de audácia.

21. Quanto ao que se refere à vida doméstica nos ensinamentos dos
naturalistas é quase tudo contido nas seguintes declarações: que o
casamento pertence ao gênero dos contratos humanos, que pode ser
legalmente revogado pelo desejo daqueles que o fizeram, que os
governadores civis do Estado têm poder sobre o laço matrimonial; que
na educação dos jovens nada deve ser ensinado em matéria de religião
como opinião certa e fixada; e cada um deve ser deixado livre para
seguir, quando chegar à idade, qualquer que ele preferir. Os Maçons
concordam completamente com estas coisas; e não somente concordam, mas
têm longamente esforçado-se para transformá-las em lei e instituição.
Pois em muitos países, e aqueles nominalmente Católicos, é
estabelecido que nenhum casamento deve ser considerado legal a não ser
aqueles contraídos pelo rito civil; em outros lugares a lei permite o
divórcio; e em outros todos os esforços são feitos para torná-lo legal
tão logo quanto possível. Portanto, o tempo está rapidamente se
aproximando em que os casamentos vão ser tornados em outro tipo de
contrato - ou seja em uniões mutáveis e incertas que um capricho pode
unir, e que do mesmo modo quando se modificar pode desunir.

Com a maior unanimidade a seita dos Maçons também esforça-se para
tomar a si mesma a educação da juventude. Eles pensam que eles podem
facilmente moldar às suas opiniões aquela idade macia e maleável, e
torcê-la no que quer que eles desejem; e que nada pode ser mais
adequado do que isto para permitir a eles levar a juventude do Estado
a seguir seu próprio plano. Portanto, na educação e instrução de
crianças eles não permitem qualquer participação, quer no ensinamento
ou na disciplina, aos ministros da Igreja; e em muitos lugares eles
têm procurado obter que a educação dos jovens esteja exclusivamente
nas mãos de leigos, e que nada que trate dos mais importantes e mais
sagrados deveres dos homens para com Deus deva ser introduzido na
instrução sobre moral.

22. E ainda há as suas doutrinas sobre política, em que os
naturalistas decretam que todos os homens tem o mesmo direito, e são
em todos os aspectos da mesma e igual condição; que cada um é
naturalmente livre; que nenhum tem o direito de comandar a outrem; que
é um ato de violência requerer que homens obedeçam qualquer autoridade
outra que aquela que é obtida deles mesmos. De acordo com isto,
portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre; o poder é exercido
pela ordem ou permissão do povo, de modo que, quando o desejo do povo
muda, os governantes podem ser legalmente depostos e a fonte de todos
os direitos e deveres civis está ou na multidão ou na autoridade
governante quando esta é constituída de acordo com as últimas
doutrinas. É sustentado também que o Estado deve ser sem Deus; que nas
várias formas de religião não há razão pela qual uma devesse ter
precedência sobre outra; e que todas elas devem ocupar o mesmo lugar.

23. Que estas doutrinas são igualmente aceitáveis aos Maçons, e que
eles desejariam constituir Estados de acordo com este exemplo e
modelo, é excessivamente bem conhecido para requerer prova. Por algum
tempo eles tem abertamente esforçado-se para tornar isto realidade com
toda a sua força e recursos; e deste modo eles preparam o caminho para
não poucos homens audaciosos que estão se apressando a fazer até as
piores coisas, em seu esforço para obter igualdade e comunhão de todos
os bens pela destruição de todas as distinções de título e
propriedade.

24. O que, portanto, a seita dos Maçons é, e que trilha ela persegue,
aparece suficientemente do sumário que Nós resumidamente demos. Seus
dogmas principais estão tão grandemente e manifestamente apartados da
razão que nada pode ser mais perverso. Desejar destruir a religião e a
Igreja que o próprio Deus estabeleceu, e cuja perpetuidade Ele
assegura por Sua proteção, e trazer após um lapso de dezoito séculos
as maneiras e costumes dos pagãos, é notável insensatez e audaciosa
impiedade. Nem é menos horrível nem mais tolerável que eles repudiem
os benefícios que Jesus Cristo tão misericordiosamente obteve, não
somente para os indivíduos, mas também para as famílias e a sociedade
civil, benefícios os quais, mesmo de acordo com o julgamento e
testemunho de inimigos da Cristandade, são muito grandes. Nesta
empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável
e o espírito de vingança com o qual o próprio Satanás está inflamado
contra Jesus Cristo. - Do mesmo modo o estudado esforço dos Maçons
para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para
cooperar com aqueles que desejarem, como se fossem meros animais,
fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa e
desgraçada ruína do gênero humano.

O mal, também, é agravado pelos perigos que ameaçam a sociedade
doméstica e civil. Como Nós demonstramos, no matrimônio, de acordo com
a crença de quase todas nações, há algo sagrado e religioso; e a lei
de Deus determinou que os matrimônios não devam ser dissolvidos. Se
eles forem desprovidos do seu caráter sagrado, e feitos dissolúveis,
problemas e confusão na família serão o resultado, a esposa sendo
despojada de sua dignidade e as crianças deixadas sem proteção quanto
aos seus interesses e bem-estar. - Não ter nos assuntos públicos
qualquer cuidado pela religião, e nos arranjos e administração dos
assuntos civis não ter maior consideração para com Deus do que se Ele
não existisse, é uma imprudência desconhecida dos próprios pagãos;
pois em seus corações e almas a noção de uma divindade e a necessidade
de uma religião pública estavam tão firmemente estabelecidas que eles
teriam pensado ser mais fácil ter uma cidade sem fundamentos do que
uma cidade sem Deus. A sociedade humana, para a qual nós
verdadeiramente por natureza somos formados, foi constituída por Deus,
o Autor da natureza; e dEle, como de seu princípio e fonte, fluem em
toda a sua força e permanência os incontáveis benefícios com os quais
a sociedade abunda. Como todos e cada um de nós somos admoestados pela
própria voz da natureza para cultuar a Deus em piedade e santidade,
como o Doador da vida e de tudo que é bom nela, do mesmo modo e pela
mesma razão, nações e Estados estão obrigado a cultuá-lO; e portanto é
claro que aqueles que querem absolver a sociedade de todos os deveres
religiosos agem não só injustamente mas também com ignorância e
insensatez.

25. Como os homens são pela vontade de Deus nascidos para a união
civil e sociedade, e como o poder de governar é um elo de união tão
necessário à sociedade que, se ele é retirado, a sociedade
necessariamente e imediatamente se desfaz, segue que dEle que é o
Autor da sociedade veio também a autoridade de governar; assim quem
quer que governe, é ministro de Deus. Portanto, como o fim e a
natureza da sociedade humana requerem, é correto obedecer às justas
ordens da autoridade legal, como é correto obedecer a Deus que governa
todas as coisas; e é extremamente falso que o povo tenha como um poder
jogar de lado sua obediência quando quer que lhe agrade.

26. De maneira semelhante, ninguém duvida que todos os homens são
iguais uns aos outros, tanto quanto se refere à sua origem e natureza
comuns, ou o fim último que cada um deve atingir, ou os direitos e
deveres que são daí derivados. Mas, como as habilidades de todos não
são iguais, como um difere do outro nos poderes da mente e do corpo, e
como há realmente muitas dessemelhanças de maneiras, disposição, e
caráter, é extremamente repugnante à razão esforçar-se por confinar
todos dentro da mesma medida, e estender completa igualdade às
instituições da vida civil. Assim como uma perfeita condição do corpo
resulta da conjunção e composição de seus vários membros, os quais,
embora diferindo em forma e propósito, fazem, por sua união e
distribuição de cada um em seu próprio lugar, uma combinação bela para
ser mantida, firme em força, e necessária para o uso; desse modo, na
comunidade, há uma quase infinita dessemelhança de homens, como partes
do todo. Se eles devem ser todos iguais, e cada um deve seguir seu
próprio desejo, o Estado vai aparecer extremamente deformado; mas se,
com uma distinção de graus de dignidade, de ocupações e empregos,
todos habilmente cooperarem para o bem comum, eles irão apresentar a
imagem de um Estado bem constituído e conformado à natureza.

27. Agora, dos perturbantes erros que Nós temos descrito os maiores
perigos para os Estados devem ser temidos. Pois, sendo retirados o
temor a Deus e a reverência pelas leis divinas, sendo desprezada a
autoridade dos governantes, a sedição permitida e aprovada, e as
paixões populares exacerbadas até o desprezo pela lei, sem qualquer
freio a não ser o castigo, uma mudança e derrubada de todas as coisas
necessariamente seguirá. Sim, esta mudança e derrubada é
deliberadamente planejada e colocada em curso por várias associações
de comunistas e socialistas; e aos seus propósitos a seita dos Maçons
não é hostil, mas favorece grandemente seus desígnios, e tem em comum
com eles suas principais opiniões. E se estes homens não se esforçam
imediatamente e em todo lugar para levar à frente seus pontos de vista
extremos, isso não deve ser atribuído ao seu ensinamento e sua
vontade, mas à virtude daquela divina religião que não pode ser
destruída; e também porque a parte mais sólida dos homens,
recusando-se a ser escravizada às sociedades secretas, vigorosamente
resiste às suas insanas tentativas.

28. Se todos os homens julgassem a árvore pelo seu fruto, e
reconhecessem a semente e origem dos males que nos pressionam, e dos
perigos que estão nos ameaçando! Nós temos que lidar com um inimigo
enganoso e habilidoso, que, gratificando os ouvidos do povo e dos
príncipes, os tem enleado por falas macias e por adulação. Entrando
nas boas graças dos governantes sob a alegação de amizade, os Maçons
tem se esforçado para fazê-los seus aliados e poderosos auxiliadores
para a destruição do nome Cristão; e para que eles possam mais
fortemente pressioná-los, eles têm, com determinada calúnia, acusado a
Igreja de maliciosamente contender com os governantes em assuntos que
afetam a sua autoridade e soberano poder. Tendo, por estes artifícios,
assegurado a sua própria segurança e audácia, eles começaram a exercer
grande peso no governo dos Estados: mas entretanto estão preparados
para sacudir as fundações de impérios, para perturbar os governantes
do Estado, para acusá-los, e para expulsá-los, tão freqüentemente
quanto eles aparentam governar de modo diferente do que eles próprios
poderiam ter desejado. De modo semelhante, eles têm por falsos elogios
iludido o povo. Proclamando com uma alta voz a liberdade e
prosperidade pública, e dizendo que era por causa da Igreja e dos
soberanos que a multidão não era retirada de sua injusta servidão e
pobreza, eles se impuseram sobre o povo, e, excitando-os por uma sede
por novidades, eles os pressionaram a assaltar tanto a Igreja quanto o
poder civil. Entretanto, a expectativa de benefícios que era esperada
é muito maior do que a realidade; realmente, as pessoas comuns, mais
oprimidas do que elas eram antes, estão privadas em sua miséria
daquele consolo que, se as coisas tivessem sido arranjadas de um modo
Cristão, eles teriam tido com facilidade e em abundância. Mas, quem
quer que lute contra a ordem que a Divina Providência constituiu paga
usualmente a penalidade por seu orgulho, e encontra-se com a aflição e
a miséria quando eles insensatamente esperavam encontrar todas as
coisas prósperas e conforme os seus próprios desejos.

29. A Igreja, se ela dirige os homens a prestar obediência
principalmente a acima de tudo a Deus o soberano Senhor, é erradamente
e falsamente considerada ou invejosa do poder civil ou de se arrogar
algo dos direitos dos soberanos. Pelo contrário, ela ensina que o que
é retamente devido ao poder civil deve ser prestado a ele com
convicção e consciência de dever. Ensinando que do próprio Deus vem o
direito de governar, ela adiciona uma grande dignidade à autoridade
civil, e ainda ajuda a obter a obediência e boa intenção dos cidadãos.
Amiga da paz e sustentáculo da concórdia, ela abraça a todos com amor
maternal, e, intencionando apenas auxiliar o homem mortal, ela ensina
que à justiça deve ser ajuntada a clemência, eqüidade à autoridade, e
moderação à legislação; que o direito de ninguém pode ser violado; que
a ordem e a tranqüilidade pública devem ser mantidas e que a pobreza
daqueles que estão em necessidade deve, tanto quanto possível, ser
aliviada pela caridade pública e privada. "Mas por esta razão," para
usar as palavras de Sto. Agostinho, "os homens pensam, ou gostariam de
acreditar, que o ensinamento Cristão não é adequado para o bem do
Estado; pois eles desejam que o Estado seja fundado não em sólida
virtude, mas na impunidade do vício."[14] Sabendo destas coisas, os
príncipes e o povo agiriam com sabedoria política[15], e de acordo com
as necessidades da segurança geral, se, ao invés de juntar-se aos
Maçons para destruir a Igreja, eles se juntassem à Igreja para repelir
os seus ataques.

30. O que quer que o futuro possa ser, neste grave e difundido mal é
Nosso dever, veneráveis irmãos, esforçar-nos por encontrar um remédio.
E porque Nós sabemos que a Nossa melhor e mais firme esperança de um
remédio está no poder daquela divina religião que os Maçons odeiam em
proporção ao seu medo dela, Nós pensamos ser de capital importância
chamar esse grande poder salvífico em Nosso auxílio contra o inimigo
comum. Portanto, tudo que os Pontífices Romanos Nossos predecessores
decretaram com o propósito de opor-se aos projetos e esforços da seita
maçônica, e tudo que eles tenham legislado quanto à entrada ou saída
de homens de sociedades deste tipo, Nós ratificamos e confirmamos
completamente pela nossa autoridade apostólica: e confiando
grandemente na boa intenção dos Cristãos, Nós rogamos e imploramos a
cada um, pela sua salvação eterna, para ser o mais conscienciosamente
cuidadoso para não divergir o mínimo que seja daquilo que a sé
apostólica tem ordenado neste assunto.

31. Nós rogamos e imploramos a vós, veneráveis irmãos, a juntar os
vossos esforços com os Nossos, e esforçadamente lutar pela extirpação
desta praga maligna, que está se esgueirando através das veias do
corpo da política. Vós deveis defender a glória de Deus e a salvação
do vosso próximo; e com o objetivo de vosso combate à vossa frente,
nem coragem nem força irão faltar. Será por vossa prudência que
julgareis por quais modos vós podeis melhor sobrepujar as dificuldades
e obstáculos com os quais vos encontrardes. Mas, como pertence à
autoridade de Nosso ofício que Nós mesmos apontemos algumas maneiras
apropriadas de procedimento, Nós desejamos que o vosso primeiro ato
seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como
realmente é; e por sermões e cartas pastorais instruir o povo quanto
aos artifícios usado pelas sociedades deste tipo para seduzir os
homens e persuadi-los a entrar em suas fileiras, e quanto à
perversidade de suas ações e à maldade de seus atos. Como Nossos
predecessores por muitas vezes repetiram, que nenhum homem pense que
ele possa por qualquer razão que seja ajuntar-se à seita maçônica, se
ele dá valor ao seu nome Católico e à sua salvação eterna como ele
deveria valorizá-los. Que nenhum seja enganado por uma pretensão de
honestidade. Pode parecer a alguns que os Maçons não exigem nada que
seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como todo
princípio e objetivo da seita está naquilo que é vicioso e criminoso,
ajuntar-se com estes homens ou em algum modo ajudá-los não pode ser
legítimo.

32. Além disso, por assíduos ensinamentos e exortações, a multidão
precisa ser levada a aprender diligentemente os preceitos da religião;
para este propósito Nós encarecidamente recomendamos que por oportunos
escritos e sermões lhes sejam ensinados os elementos daquelas sagradas
verdades nas quais a filosofia Cristã está contida. O resultado disto
será que as mentes dos homens serão fortalecidas pela instrução, e
serão protegidas contra muitas formas de erro e induções à depravação,
especialmente na presente liberdade de escrita sem limites e
insaciável desejo de aprender.

33. Grande, realmente, é a obra; mas nela o clero irá compartilhar os
vossos trabalhos, se, através de vosso cuidado, eles estiverem à
altura disto através do aprendizado e de uma vida bem orientada. Este
bom e grande trabalho requer o auxílio também da indústria daqueles
entre os leigos em que um amor pela religião e pela pátria existe ao
lado da instrução e retidão de vida. Unindo os esforços do clero e dos
leigos, batalhai, veneráveis irmãos, para fazer os homens conhecer e
amar completamente a Igreja; pois, quanto maior o seu conhecimento e
amor pela Igreja, mais eles se desviarão das sociedades clandestinas.

34. Por este motivo, não sem causa Nós usamos esta ocasião para
declarar novamente o que nós declaramos em outro lugar, ou seja, que a
Ordem Terceira de São Francisco, cuja disciplina Nós algum tempo atrás
prudentemente mitigamos[16], deveria ser refletidamente promovida e
sustentada; pois todo o objetivo desta Ordem, como constituída por seu
fundador, é convidar os homens a uma imitação de Jesus Cristo, a um
amor à Igreja, e à observância de todas as virtudes Cristãs; e
portanto ela deveria ser de grande influência em suprimir o contágio
das sociedades pervertidas. Que, portanto, esta santa irmandade possa
ser fortalecida por um crescimento diário. Entre os muitos benefícios
a serem esperados disso estará o grande benefício de voltar as mentes
dos homens à liberdade, fraternidade e igualdade de direito; não tais
como os Maçons absurdamente imaginam, mas tais como Jesus Cristo
obteve para o gênero humano e aos quais São Francisco aspirou: a
liberdade, Nós queremos dizer, de filhos de Deus, através da qual nós
podemos ser livres da escravidão a Satanás ou a nossas paixões, ambos
os mais perversos mestres; a fraternidade cuja origem está em Deus, o
Criador comum e Pai de todos; a igualdade a qual, fundada na justiça e
caridade, não remove todas as distinções entre os homens, mas, das
variedades da vida, dos deveres, e das ocupações, forma aquela união e
aquela harmonia que naturalmente tende ao benefício e dignidade da
sociedade.

35. Em terceiro lugar, há um assunto sabiamente instituído por nossos
ancestrais, mas no decorrer do tempo deixado de lado, que pode agora
ser usado como um padrão e forma de algo semelhante. Nós queremos
dizer as associações ou organizações de trabalhadores, para proteger,
sob a direção da religião, os seus interesses temporais e a sua
moralidade. Se nossos ancestrais, por longa prática e experiência,
sentiram o benefício destas associações, nossa época talvez irá
senti-lo ainda mais por causa da oportunidade que eles darão de
esmagar o poder das seitas. Aqueles que sustentam a si mesmos pelo
trabalho de suas mãos, além de serem, pela sua própria condição, mais
dignos acima de todos os outros de caridade e consolação, são também
especialmente expostos às tentações de homens cujos caminhos estão na
fraude e no engano. Portanto, eles devem ser ajudados com a maior
bondade possível, a ser convidados a juntar-se a associações que são
boas, para que eles não sejam arrastados para outras que são malignas.
Por esta razão, Nós grandemente desejamos, pela salvação das pessoas,
que, sob os auspícios e patrocínio dos bispos, e em oportunidades
convenientes, estas associações possam ser restauradas de uma maneira
generalizada. Para Nossa grande alegria, irmandades deste tipo e
também associações de mestres já foram estabelecidas em muitos
lugares, tendo, cada classe delas, por seu objetivo ajudar os honestos
trabalhadores, a proteger e guardar suas crianças e família, e a
promover neles a piedade, o conhecimento Cristão, e uma vida moral. E
neste assunto Nós não podemos nos omitir de mencionar aquela sociedade
exemplar, denominada de acordo com o seu fundador, São Vicente, que
tem merecido tanto das classes mais baixas. Seus atos e seus alvos são
bem conhecidos. Todo o seu objetivo é dar alívio ao pobre e miserável.
Isto ela faz com singular prudência e modéstia; e quanto menos ela
deseja ser notada, mais ela se adequa ao exercício da caridade Cristã,
e para o alívio dos sofredores.

36. Em quarto lugar, de modo a mais facilmente atingir o que Nós
desejamos, à vossa fidelidade e vigilância Nós recomendamos de um modo
especial os jovens, como sendo a esperança da sociedade humana.
Devotai a maior parte do vosso cuidado à instrução deles; e não pensai
que qualquer precaução possa ser grande o suficiente para mantê-los
afastados de mestres e escolas aonde o hálito pestilento das seitas
deva ser temido. Sob a vossa direção, deixem os pais, instrutores
religiosos, e padres tendo a cura de almas, usar cada oportunidade, em
seu ensinamento Cristão, para advertir suas crianças e pupilos da
natureza infame destas sociedades, para que eles possam aprender em
bom tempo a terem cuidado com os variados e fraudulentos artifícios
pelos quais seus promotores costumam laçar as pessoas. E aqueles que
instruem os jovens em conhecimento religioso agirão sabiamente se eles
induzirem todos eles a se resolverem e se comprometerem a nunca
ligar-se a qualquer sociedade sem o conhecimento de seus pais, ou o
conselho de seu padre ou diretor.

37. Nós bem sabemos, entretanto, que os nossos esforços unidos não
serão de modo algum suficientes para arrancar estas sementes
perniciosas do campo do Senhor, a menos que o Celestial Mestre da
vinha misericordiosamente nos ajude em nossos esforços. Nós
precisamos, portanto, com grande e ansioso cuidado, implorar a Ele a
ajuda que a grandeza do perigo e da necessidade requer. A seita da
Maçonaria mostra-se insolente e orgulhosa de seu sucesso, e parece que
ela não colocará limites à sua pertinácia. Seus seguidores, ajuntados
por perversos acordos e por conselhos secretos, ajudam-se uns aos
outros, e excitam-se uns aos outros a uma audácia nas coisas malignas.
Um ataque tão veemente exige uma igual defesa - especificamente, que
todos os homens de bem formem a mais abrangente associação possível de
ação e de oração. Nós imploramos a eles, portanto, com corações
unidos, a permanecer unidos e firmes contra as forças das seitas que
avançam; e em aflição e súplica estender suas mãos a Deus, orando que
o nome Cristão possa florescer e prosperar, que a Igreja possa
desfrutar da sua necessária liberdade, que aqueles que se extraviaram
possam retornar a uma mente reta, que o erro difundido possa dar lugar
à verdade, e o vício à virtude. Tomemos como nossa auxiliadora e
intercessora a Virgem Maria, Mãe de Deus, para que ela, que desde o
momento de sua concepção derrotou Satanás possa mostrar seu poder
sobre estas seitas malignas, nas quais revive o contumaz espírito do
demônio, juntamente com sua perfídia insubmissa e enganosa. Imploremos
a Miguel, o príncipe dos anjos celestes, que lançou fora o infernal
inimigo; e José, o esposo da santíssima Virgem, e patrono celeste da
Igreja Católica; e os grandes Apóstolos, Pedro e Paulo, os pais e
campeões vitoriosos da fé Cristã. Por seu patrocínio, e pela
perseverança na união de oração, Nós esperamos que Deus irá
misericordiosamente e oportunamente socorrer o gênero humano, que é
rodeado por tantos perigos.

38. Como garantia dos dons celestes e de Nossa benevolência, Nós
amorosamente concedemos no Senhor a vós, veneráveis irmãos, e ao clero
e todo o povo confiado ao vosso vigilante cuidado, Nossa bênção
apostólica.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, no vigésimo dia de abril de 1884, o
sexto ano de Nosso pontificado.


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Notas:

[1] De civ. Dei, 14, 28 (PL 41, 436).

[2] Sl 82,2-4.

[3] Const. In Eminenti, 24 de abril de 1738.

[4] Const. Providas, 18 de maio de 1751.

[5] Const. Ecclesiam a Jesu Christo, 13 de setembro de 1821.

[6] Const. dada a 13 de março de 1825.

[7] Enc. Traditi, 21 de maio de 1829.

[8] Enc. Mirari, 15 de agosto de 1832.

[9] Enc. Qui Pluribus, 9 de novembro de 1846; pronunciamento
Multiplices inter, 25 de setembro de 1865. etc.

[10] Clemente Xll (1730-40); Bento XIV (1740-58), Pio VII (1800-23);
Pio IX (1846-78). [11] Ver números 79, 81, 84.

[12] Mt 7,18.

[13] Trid., sess. vi, De justif, c. 1. Texto do Concílio de Trento:
"tametsi in eis (sc. Judaeis) liberum arbitrium minime extinctum
esset, viribus licet attenuatum et inclinatum."

[14] Ver Arcanum, no. 81.

[15] Epistola 137, ad Volusianum, c. v, n. 20 (PL 33, 525).


[16] (17 de setembro de 1882), na qual o Papa Leão XIII tinha
recentemente glorificado S. Francisco de Assis por ocasião do sétimo
centenário de seu nascimento. Nesta encíclica, o Papa apresentou a
Ordem Terceira de S. Francisco como uma resposta Cristã aos problemas
sociais da época. A constituição Misericors Dei filius (23 de junho de
1883) expressamente relembrou que a negligência com a qual as virtudes
Cristãs são tidas é a causa principal dos males que ameaçam as
sociedades. Confirmando a regra da Ordem Terceira e adaptando-a às
necessidades dos tempos modernos, o Papa Leão XIII intencionava trazer
de volta o maior número possível de almas à prática destas virtudes.

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